A Caverna – o mito de Saramago

Quando conheci Saramago ele já havia morrido há uns dois anos. Falo aqui de 2012 ou 2013, quando eu era ainda uma criança, ao ler Ensaio sobre a cegueira, com as expectativas lá em cima (o que não sei se foi uma boa ideia [a idade ou as expectativas?]). Eu não sabia que ele já não estava entre nós, enquanto lia; na verdade está, e aqui me restrinjo a sua obra. Lembro-me de ficar decepcionada, como se tivesse perdido alguma coisa, como se estivesse atrasada para o compromisso de lê-lo enquanto estava vivo; como se isso mudasse alguma coisa.

Primeiro o choque do correr das linhas, das páginas sem lacunas de expirações, dos diálogos que subitamente começavam e terminavam. Sou a grata a mim mesma pela criança persistente que fui: se me deixasse assustar pela arquitetura das construções de Saramago, jamais conheceria a riqueza de seus interiores.

Caverna é prova de que escolher um livro aleatoriamente numa estante, sem qualquer conhecimento prévio sobre ele, pode render grandes experiências. Publicado em 2000, conta uma história de uma família de oleiros que se veem diante de uma crise profissional: ninguém mais se interessa por utensílios de barro. Obrigados à reinvenção, a família persiste na ideia de que do barro ainda virá sua salvação, e se recusa a consentir com a modernização da cidade que cresce diante de seus olhos, ameaçando-os, engolindo-os pouco a pouco.

Se o título não chamar a atenção do leitor, ele logo sentirá que a narrativa não é para si de todo estranha. As raízes de A Caverna nascem no mito de Platão, aquele onde os prisioneiros se recusam a conhecer a real forma das coisas, se contentando apenas com um traçado nebuloso. No mito, há a figura do filósofo, o homem que se liberta das correntes e escolhe a luz, e não a sombra. No livro, o leitor deverá se decidir por qual personagem exerce esse papel.

Ayla Cedraz estuda Letras Vernáculas e Inglês na Universidade Federal da Bahia. Escreve às segundas, a cada três semanas.  jornalismo@destaque1.com

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