Arembepe: paz, amor, memórias e artesanato marcam 51 anos da Aldeia Hippie

Calmaria, maresia, água fresca, paz e harmonia são alguns elementos que fazem parte da Aldeia Hippie em Arembepe, no litoral de Camaçari. O povoado singelo, habitado por crianças, jovens e adultos, utiliza a produção de artesanatos como fonte de sobrevivência desde o final dos anos 60. A comunidade alternativa é uma das poucas que ainda mantém a cultura viva no Brasil e que neste ano comemora 51 anos do movimento hippie.

Coqueiros, casas e cabanas de madeira e construídas com pedras, garrafas de vidro e demais materiais, pequenas e grandes, são alguns dos modelos dos diversos lares das famílias que foram constituídas ao longo dos anos na aldeia. Não há nenhum registro que concretize ou comprove de fato a data específica em que a Aldeia Hippie começou a ser povoada, todos os relatos e histórias são transmitidos de gerações em gerações, além das pessoas que circulam pelo local.

Água doce ou salgada, são as duas possibilidades que a natureza proporciona para quem gosta de se refrescar na Aldeia Hippie. Os moradores e visitantes costumam se banhar no Rio Capivara e se der mais alguns passos chegam até a praia.

Fernando vê no artesanato um caminho para criar novas histórias. Foto: Carolina Torres

Na vila os hippies, em sua maioria, são conhecidos somente pelo primeiro nome ou apelidos. O artesão camaçariense, Fernando, 31 anos, reside na comunidade há alguns anos e atribui a arte como um estilo de vida. Ele não encara a produção artesanal como um trabalho. Para ele, esse sistema faz uma conexão entre as emoções e a criatividade. O hippie também conta que através da arte tem a possibilidade de criar e recriar histórias.

‘’Quando eu comecei a aprender a trabalhar com artesanato e viver da arte, percebi que eu poderia viajar e viver através da minha história de uma forma diferente da cidade. Lá você busca muita matéria e aqui dentro da aldeia ou de uma comunidade alternativa, nós buscamos o conhecimento pessoal e também uma conexão com um ser divino’’, destaca Fernando.

O artesanato não é considerado somente como um produto ou arte na aldeia, mas também como um processo terapêutico. Esse é um dos elementos da psicologia que auxilia o artista a desenvolver suas potencialidades, ter autoconfiança, além de orientá-lo, caso tenha dificuldade de se integrar e interagir socialmente.

O artesão Fernando acredita que o processo criativo não tem que ser levado como uma obrigação, e sim ser encarado com uma certa harmonia e diversão. A natureza é uma das suas inspirações e suas produções servem como uma verdadeira terapia ocupacional. “O lugar aqui, em si, já inspira né?! Então, a terapia é quando você fecha os olhos, mentaliza e cria através de técnicas antigas. O artista acaba criando a sua própria história dentro do próprio psico’’, pontua.

 

Memórias, histórias e paixões culturais

Com um cenário psicodélico, a casa em que o poeta, Walter César, 51 anos, reside traz um estilo diferenciado: pinturas espalhadas pela área externa, quadros e fotografias penduradas nas paredes, grandes portões de madeira, esculturas e camisetas com pinturas do surrealismo e abstrativismo. Há mais de 20 anos na Aldeia Hippie, ele é um dos artistas que mais estimula a construção criativa e manifestações artísticas na comunidade.

A cabana começou a ser construída nos anos 70 pelo artista plástico e hippie, Luiz Cerqueira, e o espaço ficou conhecido como “Usina de Artesanato – 44” devido às produções artísticas e culturais que são desenvolvidas por lá. Pinturas, debates, exibição de documentários, modelagens, recitais de poesias, exposição de livros e fotografias são alguns dos elementos que compõem o lar. Atualmente, a casa continua aberta para visitação e já transitaram inúmeros artistas, jornalistas, professores, músicos e intelectuais do Brasil e exterior.

Walter César. Foto: Carolina Torres

Durante entrevista, Walter relatou que sempre separa um tempo para se dedicar no desenvolvimento de atividades e brincadeiras artísticas com as crianças da comunidade, transmitindo técnicas e estratégias que ele adquiriu no decorrer do tempo. Uma outra medida socioeducativa que ele desenvolve junto com o vilarejo é na organização de um luau, onde são realizadas apresentações musicais, teatrais e entre outras manifestações artísticas.

Questionado sobre a sua escolha de viver na aldeia, ele conta que uma das coisas que o induziu a morar foi por conta da flexibilidade, estabilidade emocional e tranquilidade que o ambiente oportuniza. “O que me atraiu e também cativa outras pessoas não é somente a beleza em si, mas o estado de espírito que o vilarejo nos proporciona. Acordo cedo e posso ir caminhar no mar, pescar um peixe, escolher o momento de realizar minhas atividades”, expressa.

Uma história comovente da vila é a do ex-operário, Adriano Mendes, que enquanto trabalhava em uma obra, teve o seu joelho lesionado e por conta disso ficou impossibilitado de continuar exercendo a atividade. Seu sonho era trabalhar como eletricista, mas o acidente deixou sequelas e hoje ele possui dificuldade de locomoção, necessitando do apoio de uma muleta.

Aos poucos Adriano foi encontrando sobras de materiais que estavam na obra como cobre, aço, lascas de coco e a partir disso começou a aproveitar os utensílios para criar alguns artesanatos.

“Eu ia criando peças através dos cobres que iam sobrando da obra. Não tinha como eu trabalhar lesionado, então eu quis ser artesão. Através disso meu objetivo se tornou fazer pulseiras, compartilhando a arte e marcando gerações com as pequenas coisas”, explica o artista.

Mãe, artesã e mochileira

Com dreads e acessórios coloridos, risonha e cheia de vida, a hippie Hosana, 42 anos, nasceu e foi criada em Arembepe construindo a sua própria identidade e características a partir da cultura que compõe a vila e que faz parte da sua ancestralidade. Carregando uma bagagem de conhecimento surpreendente, ela viajou como mochileira pelo Brasil e América Latina por 15 anos.

“Os hippies passavam por aqui e resolvi pegar carona. A partir daí, comecei a viajar conhecendo outras culturas, pessoas e línguas. Então passei cerca de 15 anos viajando pelo Sul da América e algumas partes do Brasil”, conta.

Mãe de seis filhos, ela chegou a viajar com o esposo e as crianças de cidade em cidade produzindo e comercializando arte, aprendendo outros idiomas e se especializando em outros tipos de artesanato. E de tudo o que construiu e conquistou com a arte até aqui, revela que uma das suas maiores realizações é a inserção do seu filho mais velho na universidade.

“O meu filho Areal, de 24 anos, já construiu a sua família e está fazendo a segunda universidade. Primeiro ele fez gestão ambiental e agora educação física. Então, eu comprovei que é possível viver de artesanato e colocar os meninos na escola, formar e chegar até a universidade”, enfatiza Hosana.

Assim como outros hippies, Hosana também vive do artesanato. Se especializou na produção de bolsas, colares, cintos, pulseiras e braceletes de couro. De acordo com a artesã, esses acessórios demandam um pouco mais de tempo e dedicação, desde a sua construção até a finalização.

De volta à Arembepe

Moraes Moreira durante show no Festival de Arembepe 2019. Foto: Hyago Cerqueira

Pela Aldeia Hippie já passaram diversos artistas de âmbito nacional como Caetano Veloso, Rita Lee, Tim Maia, Gal Costa, Waly Salomão, Gilberto Gil e inclusive o emblemático cineasta baiano Glauber Rocha. As “figuras” internacionais que veranearam na aldeia vão de Mick Jagger do Rolling Stones, a Janis Joplin, passando por Roman Polanski, Jack Nicholson e Jimmy Hendrix que era considerado um dos maiores guitarristas da década de 70.

Em uma noite memorável, o grupo Novos Baianos marcou presença no dia 30 de março durante o Festival de Arembepe 2019. Retornando à Arembepe, Baby do Brasil, Moraes Moreira, Paulinho Boca, Pepeu Gomes e Luiz Galvão fizeram um show com repertório clássico.

Dando início à apresentação com maestria, a primeira música tocada pelo grupo foi ‘Preta Pretinha’, em seguida embalaram sucessos que vêm sendo transmitidos de geração em geração, a exemplo de “Dê um Rolê”, “A Menina Dança”.

O grupo possui uma relação com a Bahia desde a década de 70, a sua última turnê foi há dois anos, em 2017, que fez referência ao segundo e histórico álbum, “Acabou Chorare”, lançado em 1972.

Requalificação, Parque Ecológico e Museu  

Agora no mês de abril, a Prefeitura de Camaçari anunciou que a Aldeia Hippie passará por uma requalificação e o espaço será modificado, passando a ser um ‘Parque Ecológico e Museu Vivo’. O projeto recebe como título “o paraíso da liberdade e da contracultura” a partir da criação e desenvolvimento do artista e arquiteto Gringo Cardia.

De acordo com o Governo Municipal, as residências construídas pela aldeia irão passar por algumas modificações. “A Aldeia conta com 31 unidades habitacionais que serão preservadas e transformadas em obras de arte por artistas internacionais, nacionais e locais, que abordarão em suas composições 23 temas. Cada casa acolherá um artista através de painéis de mosaicos de suas obras nas fachadas, esculturas e objetos singulares nos jardins”, esclarece.

Ainda segundo a prefeitura, o projeto tem como pretensão promover um comércio sustentável com o aprimoramento da produção e comercialização de produtos artísticos. Ao longo do vilarejo as atribuições do museu serão colocadas em alguns pontos, como o caso de salas com telas grandes espalhadas pela aldeia com a projeção de filmes imersivos e salas menores com vídeos da museografia nas casas dos aldeanos.

Dentro do museu também são abordadas cerca de 23 temáticas ligadas à história da Aldeia Hippie de Arembepe; o movimento hippie; os hippies visionários e a tecnologia para o bem comum; a Bahia dos anos 70; o tropicalismo; o rancho de Janis Joplin; os Novos Baianos e o mistério do planeta; e os neo hipsters do século XXI. Além da criação de um calendário de atividades culturais durante todo ano.

A prefeitura não estipulou nem informou um prazo para a finalização do projeto, assim como o início das obras de manutenção na comunidade.

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