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Só o NÃO é capaz de superar os diversos mitos da atual política, por Edson Miranda

Precisamos recriar todo o nosso arcabouço institucional para então fazer funcionar um novo ciclo virtuoso da Política.

Edson Miranda

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Só o NÃO é capaz de superar os diversos mitos da atual política, por Edson Miranda
Foto: Reprodução

Podemos afirmar que o mito é algo que um dia foi ou ensejou uma verdade. Essa condição de “mito” depende, exclusivamente, da negação de suas antigas crenças constituintes. No mundo atual, continuamos a conviver com inúmeros mitos. É o caso da publicidade, principalmente em seus formatos oficiais, de propaganda política partidária e aquele que vem embutido no jornalismo, particularmente o declaratório ou aspeado.

Diferente do mito tradicional, no entanto, o da publicidade/propaganda carrega apenas o seu caráter de tragédia. Encontra-se destituído da sua natureza também de catarse, como ocorre nos mitos tradicionais, ao dar-se a condição de representação pública e coletiva.

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O atual mito da publicidade/propaganda, ao submeter-se ao mundo da pequena política, inclusive ao seu aspecto mais nocivo, que se verifica na alta possibilidade de corrupção material e intelectual, apenas auxilia na confecção de roteiros milagrosos, que servem única e exclusivamente para plasmar futuras tragédias, provocadas pelo novelo nefasto, propício ao caos e insensível da política e seus governos.

Assim, uma das nossas principais urgências atuais é colocar a publicidade/propaganda no seu devido lugar, ou seja, na sua condição de mito contemporâneo: não podemos afirmar tratar-se de uma “história verdadeira ou falsa”, sobre ela não reside nenhuma precisão histórica; sua função, diferente dos mitos tradicionais, é a pura fantasia, sem possibilidade de usos catárticos, de puro embuste. No popular, de pura embromação. ‘Enrolechion’!

Se de fato estamos pensando em transformações profundas para o Brasil e sua gente, devemos começar relegando a publicidade/propaganda a um estado de “fábula desacreditada”. Do contrário, continuaremos a brincar de política e a pisotear na sorte e na vida dos brasileiros, principalmente em suas camadas mais pobres e oprimidas.

Nos artigos anteriores, procurei demonstrar como o atual exercício da “política” no Brasil tem sido a causa dos nossos maiores males, das nossas intermináveis tragédias. No presente artigo, busco trabalhar de maneira mais concreta e prática: trago um simples e corriqueiro exemplo, do nosso dia a dia, para ilustrar melhor essa tese. Existem inúmeros outros exemplos, é só uma questão de sair da caixinha mental para perceber e refletir sobre todos eles a partir de uma nova perspectiva, mais complexa e holística.

Recolhi nas ruas de Salvador imagens de duas campanhas publicitárias/propagandas, uma realizada pelo governo do estado e outra realizada pela prefeitura da capital, para que você perceba melhor como a competição irracional, a guerra na política, conduz um país de maioria pobre e miserável, por isso de inúmeras necessidades e prioridades, a um verdadeiro crime no trato do dinheiro público. Poderia até dizer inadvertido, impensado, contraditório, paradoxal, mas chega de meias palavras. Trata-se, sim, de crime premeditado, e como tal a sociedade civil deve tratá-lo, pois a sociedade política nada fará para combatê-lo.

Importante ainda salientar que não se trata de mixaria em relação a outros descalabros país afora. Não, são verbas astronômicas. Para se ter uma ideia, somente nos dois mandatos do governador Rui Costa foram gastos quase R$ 1 bilhão com publicidade e propaganda. Não tenho os valores dos dois períodos de ACM Neto à frente da Prefeitura de Salvador, mas se apurarmos veremos também sua magnitude.

Ainda para servir como agravante dessa atual realidade, recentemente o governo federal, outro gastador irracional da grana da “comunicação”, propôs uma mudança na lei para permitir que campanhas publicitárias ocorram durante todo o ano eleitoral. A lei em vigor até aqui só permite gastos até o primeiro semestre do ano eleitoral.

Caso seja aprovada a nova lei, vai ficar muito mais evidente que a verba da publicidade pode ser também contabilizada como gasto eleitoral, muito mais que prestação de contas de realizações de governos, e devem ser somadas aos bilhões do fundo eleitoral, aos bilhões do fundo partidário, aos milhões gastos por prefeituras país afora com “shows musicais”, motociatas e afins, e aos milhões destinados a outras campanhas eleitorais, disfarçadas de comemorações de datas importantes, a exemplo do Primeiro de Maio deste ano em São Paulo, com destaque para o “showmício” da cantora baiana Daniela Mercury.

Então, reconheçamos, antes tarde do que nunca, que se trata, sim, de muita grana pública que, aliada a outros desperdícios da política e dos políticos brasileiros, nos oferece uma dimensão do tamanho desse saco sem fundos que é o Sistema Político Brasileiro, e como ele asfixia o país, usa mal o imposto resultante do nosso trabalho e, dessa maneira irracional, inviabiliza o desenvolvimento do Brasil e deixa de investir nas verdadeiras potencialidades do nosso povo. Se estamos de fato querendo mudanças, acredito que é assim que precisamos encarar essa questão específica e muitas outras que ainda desconhecemos, mas que somadas geraram esse verdadeiro monstro que há séculos vem arrastando o Brasil cada vez mais para as profundezas do abismo.

Perceba, pelas fotos acima, que as duas campanhas publicitárias/propagandas quase se confundem com o mesmo tipo de mensagem, exatamente num domínio, o mundo das agências publicitárias, no qual criatividade e inovação devem ser características fortes e visíveis. Virou mero jogo, competição sem propósito civilizatório. Oba, oba!

Da próxima vez que você, leitor, passar de transporte público ou no seu carro particular, apure sua visão, e então perceberá que Salvador, neste momento, vive uma guerra irracional de propagandas, cujo objetivo maior é o eleitoral, enquanto nossas prioridades de cidadania e nossas carências simbólicas e materiais, que poderiam ser atendidas e mitigadas, são silenciadas propositalmente, a fim de impedir a emergência de uma outra visão política capaz de buscar novos e virtuosos caminhos.

Pergunto qual o sentido de tais mensagens num país e estado com tantas carências? Que benefício, material ou simbólico, elas podem oferecer para populações tão sacrificadas? Praticamente nenhum. São palavras jogadas ao vento, apenas vontade exclusiva de propagandear feitos de governos que se avolumam em anos eleitorais. Alguns podem até argumentar que este é o mecanismo que os governantes têm para prestar contas ao povo daquilo que estão realizando com o orçamento público. Eu digo: péssima maneira de prestar contas. Existem maneiras mais criativas e transparentes de se prestar contas das obrigações governamentais.

Da forma como estão elaboradas e divulgadas demonstram apenas a necessidade de competição em ano eleitoral, sem a mínima preocupação com o tipo de mensagem veiculada. Expressam também a rapidez com que as agências querem faturar todo o valor do contrato, de preferência em uma ou duas campanhas, para potencializar seus lucros. Já vi campanha sobre a dengue em que um tanque de água de verdade foi colocado em cima da placa de outdoor. Convenhamos, um luxo, uma esnobação com o dinheiro público. Algo do tipo: “com pólvora dos outros, eu atiro sem ver o alvo”, como diz o ditado popular. Na verdade, o grande problema que vejo é a falta de sentido dessas propagandas, a não ser, como já afirmei, a grande necessidade de alimentar um sistema irracional que tem na disputa a todo e qualquer custo sua motivação de sobrevivência.

Evidente que considero importante a destinação de verbas para publicidade governamental, ela mantém milhares de empregos e garante de pé setores importantes da diversidade cultural e política e para nossa democracia: as próprias agências, o jornalismo e uma gama imensa de outras empresas, artistas e iniciativas coletivas e individuais. Disso não tenho nenhuma dúvida, e se a verba fosse melhor utilizada, o atual valor poderia até aumentar.

Com essa afirmação e análise, claramente, quero me abstrair, não quero levar em consideração toda as formas de direcionamento político desses recursos, o famoso “para os amigos a verba da publicidade, para os inimigos um pires para segurar nas mãos”, além da tentativa de ideologização através das verbas de “comunicação” e, o mais grave, da corrupção desenfreada no segmento, que levou muita gente graúda às barras da polícia e da justiça. Estas são também questões fundamentais a serem tratadas no bojo de um projeto emancipador.

Atualmente, pratica-se uma “comunicação” quase totalmente dissociada da vida real do nosso povo. Sem nenhuma sintonia com os nossos graves problemas atuais e futuros. Puro nonsense, se não fosse trágico! Por que, então, não usar essa verba da publicidade para melhorar, com peças criativas e inovadoras, a formação do nosso povo? Para educá-lo no trânsito; no convívio com o outro; para não jogar lixo nas ruas; para sobreviver às tragédias provocadas pelas mudanças climáticas, cada vez mais frequentes, a mais recente em Pernambuco, com mais de 120 mortos; para cuidar das crianças e idosos; evitar acidentes domésticos; aprender regras de boa convivência; evitar atitudes violentas, aprender a pensar e a realizar com as Ciências… O que não falta é tema para ser abordado de maneira pedagógica e criativa e que de fato resulte em benefícios para nossa sociedade, nossa gente e nossa democracia.

Por que, então, não envolver agências e veículos de comunicação nesse esforço transformador que o Brasil tanto necessita? Acredito que em 50 anos, certamente, alcançaríamos um outro patamar civilizatório na nossa sociedade. Não precisa começar com 100% da verba publicitária para tal propósito. Poderia começar com um percentual para esse novo modelo comunicacional e um outro percentual para o atual modelo de “prestação de contas”. Já seria um enorme ganho, não devemos alimentar a ilusão de que vamos superar o atual Brasil disfuncional, irracional, da noite para o dia. A paciência e a perseverança são nossas grandes aliadas nessa longa luta.

Prestação de contas. Acho que além dos sites de transparência, que parecem ter caído em desuso, além da garantia de acesso à informação, uma lei fundamental pela qual devemos lutar, acredito que no local de cada obra governamental deveria haver uma placa com a seguinte frase: “Aqui tem dinheiro seu”! E, logo abaixo, o endereço de um hotsite, que o contribuinte poderia acessar e saber tudo sobre aquela obra: valor, importância, quem está fazendo, recursos já recebidos e muitos outros detalhes.

Agora é como já venho afirmando: você acha que o atual modelo de política e governança tem algum interesse em mudar esse estado de mazelas? É evidente que não tem, pois a maioria dos gestores e políticos sobrevive dessa situação escabrosa e bastante prejudicial para o país e seu povo. Por isso, devemos participar de maneira mais consequente na política e nas eleições. Devemos, na verdade, participar da repartição do Poder político antes de transferir nossa cota de poder, que hoje se resume ao voto, muito pouco, para um possível representante nosso.

Precisamos, de verdade, mudar toda essa atual arquitetura política nefasta, construída por quem quer se perpetuar no poder, nem que para isso tenham que promover roubos, guerras, destruição e mortes. Precisamos recriar, em outros casos regenerar, todo o nosso arcabouço institucional, para então fazer funcionar um novo ciclo virtuoso da Política, com “P” maiúsculo, um novo ciclo gerador de representatividade simétrica, de Democracia Substantiva, de direitos e deveres, de fato, republicanos.

Para tanto, precisamos de muita luta, diálogo, determinação, em alguns momentos de afirmação, em outros da negação. Mente aberta, receptiva, e na atual conjuntura, como já venho afirmando: da Potência do NÃO. Diga “Não” ao atual sistema político, eleitoral, partidário e de governança pública. É a única maneira, atualmente, de fugirmos da arapuca em que confinaram o Brasil e seu povo.

Sigamos em frente com pensamento altivo e emoção sutil.

Só o NÃO é capaz de superar os diversos mitos da atual política, por Edson Miranda

Edson Miranda Borges é jornalista e mestre em Comunicação e Culturas Contemporâneas.

*Este espaço é plural e tem o objetivo de garantir a difusão de ideias e pensamentos. Os artigos publicados neste ambiente buscam fomentar a liberdade de expressão e livre manifestação do autor(a), no entanto, não necessariamente representam a opinião do Destaque1.

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