Em meio ao avanço da importação de pneus no Brasil, o presidente do Sindicato dos Borracheiros de Camaçari, Salvador e Região Metropolitana (Sindborracha), Josué Pereira, esteve reunido com o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio e vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para solicitar o reajuste da taxação dos artigos, que não ultrapassam os 25%. O encontro, que aconteceu no último dia 7 de julho, reuniu membros da Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria de Borracha (Fenabor) na sede da pasta, em Brasília.
As entidades em defesa dos trabalhadores temem o fechamento de fábricas e alertam para dificuldades nas vendas de pneus produzidos no país. Em entrevista ao Destaque1, o presidente do Sindborracha explica que o mercado brasileiro de pneus é responsável por 41% das vendas, enquanto os itens importados representam 59% do total.
“A nossa preocupação é que isso continue entrando e possa estar tomando espaço de pneus produzido aqui, por trabalhadores brasileiros, principalmente aqui na Bahia, em Camaçari, onde nós temos duas plantas instaladas”, enfatiza. De acordo com Josué, as fábricas instaladas no município têm produzido 20% a menos do que a capacidade máxima, em razão da alta de produtos importados no mercado.
Relatórios emitidos pela Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) no primeiro quadrimestre de 2025, apontam para uma queda de 4,3% na venda dos artigos no país. “O impacto causado pelas importações de pneus de origem asiática ainda é uma realidade. É necessário garantir condições isonômicas de competição e medidas para corrigir a concorrência desleal que se instalou no comércio internacional de pneus com o Brasil”, diz trecho de nota emitida pela entidade.
Com a sobretaxação de 50% imposta pelos presidente dos Estados Unidos aos produtos brasileiros, o cenário se agrava. Atrás apenas de São Paulo, a Bahia é o estado com o maior índice de exportação de pneus, com 21,9%. A Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) projeta perdas de até US$ 89,3 milhões no setor de borracha, o terceiro mais afetado pelas taxações no estado.
O presidente Josué Pereira, que em junho esteve em um encontro da Rede Mundial Sindical no Japão, enxerga com preocupação a situação, mas frisa que as entidades e associações representativas da indústria não têm medido esforços para dialogar com o governo na tentativa de minimizar os efeitos da medida. No dia em que a entrevista foi gravada, na última quinta-feira (17), a presidência da Anip se reuniu com Alckmin para discutir os impactos da taxação.
Durante a conversa, o dirigente sindical falou sobre o cenário atual das empresas instaladas em Camaçari; as pautas levadas à agenda no Japão; e a recente parceria firmada entre a montadora de carros elétricos Build Your Dreams (BYD) e a unidade da Continental Pneus.
Confira a entrevista:

Destaque1: Como o senhor avalia o encontro recente com o vice-presidente Geraldo Alckmin? Que pautas prioritárias foram levadas ao encontro com o ministério?
Josué Pereira: O SindBorracha, junto com a Fenabor, que é a Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria de Borracha, esteve no último dia 7 em uma agenda com o Ministro de Indústria e Comércio, que é o vice-presidente Geraldo Alckmin. A pauta lá que nós estávamos discutindo é sobre a questão dos pneus importados. Nós hoje temos uma grande leva de pneus importados que ainda entram no Brasil. E a nossa preocupação é que isso continue entrando e possa estar tomando espaço de pneus produzido aqui, por trabalhadores brasileiros, principalmente aqui na Bahia, em Camaçari, onde nós temos duas plantas instaladas.
No ano passado, o pneu importado tinha 59% do mercado nacional, no nível geral. E 41% ficava para os pneus produzidos aqui no Brasil. Nós temos 14 plantas de pneus instaladas aqui, e com essas 14 plantas, temos apenas 41% do mercado. Então existe uma preocupação do sindicato quanto a esse espaço de mercado que o pneu importado tá tendo aqui, porque isso tá colocando nossos empregos aqui em risco, e os empregos estão sendo gerado fora do Brasil. Pneus importados, esses que vêm da Ásia, têm nos deixado preocupados.
A nossa conversa com o vice-presidente, com o ministro, foi sobre essa questão dos impostos para esses pneus, que pagam apenas 25% para entrar no Brasil. O pneu de passeio e o pneu de caminhão pagam apenas 16%. Então nós pedimos ao ministro que revisse essa questão da taxa de importação de pneus importados, porque esses empregos estão sendo colocados em risco. Há pouco menos de um mês, a Michelin anunciou o fechamento de uma planta em São Paulo. E nós nos preocupamos que isso possa acontecer aqui. Então, antes que a situação aconteça, se agrave, nós buscamos a ajuda do governo federal para lidar com essa questão dos importados e proteger os empregos e a indústria nacional.
D1: Atualmente, qual o cenário em Camaçari? Há também o alerta ainda com relação ao fechamento de fábricas, manutenção de empregos?
J.P.: Momentaneamente, nós estamos, de uma certa forma, atenciosos com isso. Das duas plantas instaladas no Camaçari, uma tem capacidade para produzir até 15 mil pneus por dia, e hoje está produzindo apenas 12 mil. E a outra tem capacidade para produzir 25 mil pneus dias, e está produzindo apenas 20 mil. Então, nós temos uma capacidade de produção dessas empresas ociosas, porque tem capacidade de produzir, mas o mercado ainda está sendo tomado. Esse espaço que poderia ser de uma fábrica, de um produto produzido aqui por um trabalhador nosso, já está sendo ocupado pelos produtos importados. Então nós estamos atentos a isso aí, e para evitar que as empresas venham a demitir ou que os trabalhadores venham a perder empregos aqui dentro. Essa é a nossa preocupação, e temos procurado o governo.
D1: Em junho, o senhor participou do encontro da Rede Mundial Sindical no Japão. Quais foram os principais aprendizados ou e quais são as articulações internacionais que podem fortalecer a atuação do Sindborracha aqui na Bahia?
Assista:

D1: A experiência internacional trouxe algum alerta ou inspiração em relação às condições de trabalho e organização sindical no setor de borracha?
J.P.: Então, visto informações de outros sindicatos de outros países, nós temos até algumas práticas aqui que são importantes e estão melhoradas devido a alguns outros países. É, o que é que a gente traz de lá e que a gente pode trabalhar aqui? A questão da relação no chão de fábrica, a relação no chão de fábrica entre a chefia e entre os trabalhadores, ela precisa estar sempre melhorando e sempre mudando. E nós, do Sindborracha, estamos sempre em busca de trazer coisas novas e que melhore a relação dos trabalhadores com o sindicato, com os empregadores, para melhorar, para ter qualidade de vida para os trabalhadores. E isso reflete positivamente na qualidade dos trabalhadores.
D1: A taxação imposta pelos Estados Unidos preocupa fortemente o setor. De acordo com a FIEB, 34% das exportações baianas de pneus têm como destino o mercado norte-americano. Qual o real impacto disso para as fábricas instaladas na Bahia?
Veja:

D1: Recentemente, foi anunciada a parceria da BYD com a Continental Pneus. Como o senhor avalia esse movimento? Há expectativa de manutenção ou geração de empregos no setor a partir dessa aliança?
J.P.: Estávamos presentes no almoço na BYD, e foi uma surpresa positiva. Nós estivemos conversando com a direção da Continental Pneus, e saiu dali em processo burocrático, porque tem todo um um trâmite a ser percorrido. Pelo que a empresa nos falou, há um prazo para isso, o fornecimento de pneus para teste deve acontecer até o final do ano, e para a gente é sempre positivo, porque se o contrato realmente for fechado, uma coisa é o fornecimento do pneu, outra coisa até o fechamento do contrato.
Então, se esse contrato for fechado, será positivo, porque a gente espera que empregos sejam gerados através dessa contratação, desse firmamento de contrato. Além da questão da Continental, nós temos outra empresa aqui de pneus instalada em Camaçari, que já recebeu a visita da BYD e está em processo de diálogo, porque não é só carro, cada carro é um produtor de pneus, é um fabricante, tem uma especificação. Então, a gente espera que isso aconteça e que gere mais empregos para Camaçari, porque é bom para a cidade, é bom para a empresa, é bom para os trabalhadores, é bom para todos.

D1: Essa aproximação com a BYD pode representar uma alternativa de escoamento da produção de pneus diante da crise nas exportações para os Estados Unidos?
J.P.: É uma expectativa, né? Porém, esse processo de fornecer para a montadora ainda tem um prazo, tem um tempo. Porque tem um prazo para a própria BYD aí de começar a produzir e montar carros 100% com fornecimento de peças brasileiras, daqui da Bahia. Tem um prazo para homologação desse tipo de pneu, porque tem todo um processo legal do que tem que homologar no Inmetro, tem que homologar no Ministério de Indústria e Comércio, tem todo o prazo. Claro que seria bom que se, imediatamente, quando essa questão do governo americano anunciou a taxação, a gente pudesse fazer imediatamente, mas a médio e longo prazo é uma saída futura.




