Costumo brincar que comecei a fazer terapia quando tudo era mato. Literalmente durante metade da minha vida estive com um terapeuta, e isso mudou tudo.
Lembro que muitos familiares, por proteção, me recomendavam não conversar com “qualquer um” sobre minha saúde mental. Eu, com meus 16 anos, achava engraçada a recomendação, pois achava bastante entretenimento fazer piada com tudo o que estava vivendo. Não é que eu não levasse com seriedade o assunto, é que eu entendi muito rápido que meu desafio não era durante a terapia ou nas batalhas e evoluções que eu tinha comigo, mas conviver com o restante do mundo que não era “terapeutizado”.
Eu, naturalmente, sou curiosa e gosto de ler sobre variados assuntos. A primeira profissional que se estabeleceu como minha terapeuta não deveria ter se colocado nesse papel. Ela era psiquiatra, mas afirmou para minha família que poderia, sim, conduzir minhas sessões semanalmente. Na prática, isso não funcionou. Nas minhas leituras, percebi que aquela orientação não estava correta, e todas as conduções que ela teve comigo não batiam com o que poderíamos chamar de recomendado ou ético. Então, por conta própria, comecei terapia com um psicólogo da lista do plano de saúde que tinha na época, e tudo mudou.
Dos terapeutas que tive, defino dois como primordiais para minha versão atual. Se você nunca teve oportunidade de estar em terapia, vou tentar fazer com que esse texto sirva como um guia rápido e que você pense sobre uma frase que sempre repito: todo mundo tem que fazer terapia em pelo menos algum momento da vida.
Não podemos nascer, crescer e morrer sem pensar e olhar para dentro de nós. Sei que é preciso coragem, porque realmente não é fácil remexer em coisas que nem imaginamos que guardamos, mas te garanto que sair dessa zona de conforto traz um sentido maior à vida e, no fim, recompensa lidar com tudo de forma mais saudável e leve.
A primeira coisa que você precisa pensar é: qual é seu objetivo? É meio filosófico, mas é preciso pensar. O que mais te incomoda? São suas relações interpessoais? Você tem questões com sua forma de organizar a vida? Medos? Traumas? Dificuldade em estudar? Cansado do trabalho? Concentração? Precisa de mudanças? Tem dificuldades com escolhas? Não consegue encerrar ciclos? Consegue verbalizar o que sente?
O Brasil é campeão de automedicação para dormir. Só em 2024, foram 39 milhões de caixas comercializadas, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O clonazepam, calmante mais vendido do Brasil, é parte da rotina de milhões de brasileiros, especialmente de idosos. As estimativas apontam que ao menos 2 milhões de pessoas acima de 60 anos fazem uso do medicamento no país.
Isso resume que nosso comportamento enquanto sociedade é imediato. Queremos tratar um sintoma e não nos perguntamos a origem do problema. A terapia é uma ferramenta para buscar essas respostas, mas, como essa resposta é a longo prazo, as pessoas preferem a dependência medicamentosa.
É inegável a importância da indústria farmacêutica, e hoje todos os medicamentos voltados para saúde mental são ferramentas bastante úteis para que portadores de várias doenças tenham uma vida funcional e saudável, mas isso não pode se tornar uma muleta da sociedade cansada, que, inclusive, não consegue entender o quanto desses sintomas fazem parte do que o capitalismo impõe à sociedade moderna.
Dentro da psicologia, o profissional vai seguir uma linha ou abordagem teórica, podendo, em alguns casos, combiná-las. Por isso, é importante você primeiro pensar o que busca para tentar entender se aquele profissional que irá te acompanhar tem uma linha que facilitará essa sua busca e objetivo. Obviamente, não é uma receita de bolo, mas você já consegue ir moldando a partir desses fatores.
Principais linhas da Psicologia:
- Psicanálise (Freud): explora conteúdos inconscientes, memórias de infância e sonhos para entender conflitos atuais;
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): foca em identificar e reestruturar padrões de pensamento disfuncionais, mudando emoções e comportamentos no presente;
- Psicologia Analítica (Jung): busca o autoconhecimento através da exploração do inconsciente pessoal e coletivo, usando símbolos e sonhos;
- Humanismo (e Abordagem Centrada na Pessoa – Rogers): valoriza a autonomia e o potencial do paciente, focando no desenvolvimento pessoal e empatia;
- Terapia Gestalt (Gestalt-terapia): concentra-se no “aqui e agora” (momento presente), na consciência corporal e na percepção holística do indivíduo;
- Behaviorismo (Análise do Comportamento): concentra-se no comportamento observável e sua interação com o meio ambiente;
- Terapia Fenomenológico-Existencial: busca o sentido da vida, lidando com crises existenciais e a liberdade de escolha;
- Psicologia Positiva: foca nas forças, virtudes e fatores que contribuem para a felicidade e bem-estar;
- Terapia Comportamental Dialética (DBT): foca na regulação emocional e aceitação, muito utilizada para casos de intensa desregulação emocional;
- Terapia Sistêmica: analisa o indivíduo dentro do seu contexto familiar e social.
Na minha trajetória, o primeiro terapeuta que me impulsionou tinha como linha o psicodrama, que, por sua vocação para o autoconhecimento e a investigação reflexiva das relações interpessoais, nasceu para ser uma terapia. Como tal, elimina os bloqueios, reconhecendo e substituindo papéis que não pertencem ao indivíduo por uma nova percepção de si mesmo.
Como exemplo da sua importância, sempre fui considerada inteligente e boa aluna, mas, por situações vividas na adolescência, eu só consegui ingressar na universidade com o apoio da terapia, e não digo sobre passar no Enem ou vestibular. Eu consegui mais de uma aprovação, em três cursos diferentes. O que a terapia me oferecia era a certeza de eu era capaz de realizar coisas simples do dia a dia. Parece subjetivo para quem nunca fez uma sessão, mas tenho certeza que quem é terapeutizado consegue compreender a sutileza do meu relato.
Outra profissional que foi muito importante para mim foi da linha junguiana, e com ela eu consegui acessar traumas que eu não consegui acessar em milhares de tentativas por uma década. Todos os terapeutas sempre dizem que o trabalho só é possível pela parceria entre profissional e paciente, mas é impossível não destacar o papel dos profissionais que conseguiram me acessar de forma mais profunda.
Hoje, por já saber o que funciona comigo, estou com uma terapeuta junguiana, e temos feito diversas descobertas, o que me deixa animada. Desde que saí da última sessão, pensei em escrever aqui e falar para que todos priorizem o autoconhecimento, mesmo que sejamos a gota do oceano das pessoas não terapeutizadas. Todo tempo e cuidado que temos com nós mesmo vale a pena.
Se, afinal, nascemos e morremos sozinhos, ter uma melhor versão nossa todos os dias faz a vida ser melhor do que ontem.

Iana Cedraz é geógrafa e apaixonada por Camaçari, vascaína, mãe de Hector e Mel, dois gatinhos, observa o espaço e fofoca a respeito.
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