Nos últimos anos, um fenômeno que surgiu em fóruns obscuros da internet deixou de ser marginal para ocupar espaço no debate público brasileiro: o movimento “red pill“. Inspirada na metáfora do filme “Matrix“, a expressão foi apropriada por grupos que prometem revelar aos homens uma suposta “verdade” sobre as relações de gênero. Na prática, porém, o que se observa é a reciclagem de velhas ideias misóginas sob uma nova estética digital.
Esse crescimento não é aleatório. Ele se apoia em um terreno fértil: a crise contemporânea da masculinidade. Durante séculos, o papel do homem foi rigidamente definido como provedor, autoridade familiar, figura dominante na vida pública. Com o avanço dos direitos das mulheres e a reconfiguração das relações sociais, esse modelo entrou em colapso. O problema não está na perda de privilégios injustos, mas na incapacidade de parte dos homens de lidar com essa mudança.
É justamente nesse vazio que o discurso red pill prospera. Com linguagem simples, apelo emocional e promessas de controle, influenciadores desse universo constroem uma narrativa sedutora: a de que os homens foram enganados e precisam “acordar”. O feminismo, nessa lógica distorcida, deixa de ser um movimento por igualdade para se tornar um inimigo a ser combatido.
Nas redes sociais, essa retórica ganha escala. Vídeos, podcasts e cursos vendem fórmulas prontas para “dominar relacionamentos” e “entender a natureza feminina”, reforçando estereótipos e legitimando comportamentos abusivos. Não se trata apenas de opinião, trata-se de um discurso que normaliza a desumanização das mulheres. É retrocesso, perigoso e mata!
O impacto é concreto. O fortalecimento dessas comunidades coincide com o aumento de violências físicas, emocionais e simbólicas contra mulheres. Jovens frustrados encontram nesses espaços uma validação perigosa para suas inseguranças, transformando decepções pessoais em ressentimento coletivo. A misoginia, antes mais explícita, agora se apresenta disfarçada de “verdade inconveniente” ou “liberdade de expressão”.
Os homens que rejeitam essa lógica são ridicularizados como “blue pill“, enquanto mulheres passam a ser tratadas como adversárias. O resultado é a radicalização do discurso e o aprofundamento da divisão entre os gêneros.
Ignorar o avanço desse movimento não é ingenuidade, é conivência. O fenômeno red pill está longe de ser apenas uma moda passageira da internet, trata-se de uma reação organizada e barulhenta contra avanços sociais que desafiam privilégios históricos. Não há neutralidade possível diante de um discurso que transforma frustração em ódio e insegurança em ataque.

Laiana França é mercadóloga, pós-graduanda em Gestão Empresarial e estudante de Direito, além de feminista e militante dos direitos humanos.
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