Quem segura a mão dos coletivos?

“Ninguém solta a mão de ninguém” se tornou o clichê da esquerda após a derrota na corrida presidencial de 2018. Depois de conseguir unir classes sociais, artísticas, culturais e partidárias distintas para um bem comum, os movimentos sociais se apropriaram da frase criada pela mãe da artista mineira Thereza Nardelli para convocar a união em prol de uma oposição resistente contra o governo bolsonarista.

Resistente porque a ideia é cuidar um do outro em momentos de tamanha nebulosidade. A ideia é que essa grande união proteja os maiores alvos de possíveis medidas do anti governo, como a comunidade LGBT+, feministas, movimento negro, povo indígena, movimentos sem terra, entre tantos outros.

Dito isso, o lema pode muito bem definir os coletivos culturais que atuam quase que isoladamente em cidades como Camaçari, por exemplo. Antes berço da efervescência cultural da região metropolitana de Salvador, a cidade do Polo hoje resiste graças aos raçudos coletivos que insistem em manter a chama acesa, apesar de todo vento soprando contra.

Um dos mais emblemáticos e ativos, o Slam das Mulé é um grupo que dá voz e projeta para a sociedade a arte de, em sua maioria, mulheres camaçarienses, musicistas, poetisas, dançarinas, escritoras, diretoras de cine, teatro e artistas visuais. Tão foda que representou a cidade nacionalmente, inclusive.

O Slam surfa sozinho no oceano feminino da cultura em Camaçari. Isso, obviamente, é reflexo de duas condições básicas: o desprestígio de grande parte da zona masculina da cena e da falta de incentivo da iniciativa privada que simplesmente deixou de olhar para a cultura da city.

Além das mulé do Slam, outros coletivos resistem arduamente na missão de levar cultura de forma democrática para o máximo de lugares possíveis da cidade, como a LocoMotiva Cultural, que realiza suas ações de forma descentralizada, tendo levado atividades culturais para bairros como Inocoop, Ponto Certo, Phoc II, além do Centro.

A NaLaje Multiespaço é outro que tem se destacado e feito, literalmente na laje, a maioria das últimas ações culturais que Camaçari recebeu. Samba na Praça realiza seu tradicional samba na praça Hildete Reis, na Gleba B, religiosamente todo mês, além de apresentações na orla em datas tradicionais.

Foto: Juliana Guimarães

Foi de um coletivo também que surgiu, por exemplo, a maior referência musical da cidade atualmente, representando Camaçari muitíssimo bem no cenário nacional, o Afrocidade. O grupo realizava ações itinerantes e, geralmente, ao ar livre sob a alcunha do Coletivo Bicho Solto pelos idos de 2013 e 2014. Por conta de várias influências e misturas resultantes da rotatividade de integrantes, Afrocidade se tornou o que é hoje e a gente já falou sobre isso aqui.

Fora alguns outros coletivos que têm atuado dessa forma também.

Isso só mostra que a importância desses grupos é muito clara: sem eles, praticamente não existiria promoção à cultura popular nesta cidade, principalmente na sede, já que a decorativa Secretaria de Cultura do Município só tem olhos para as datas comemorativas fixas na agenda cultural e religiosa, como as tradicionais lavagens.

Conversando com a Pamela, uma amiga de Feira de Santana, percebi que a missão e dificuldade dos coletivos têm sido as mesmas em vários outros lugares neste momento crasso. Como o terreno anda seco de arte, qualquer chuvinha de ações torna-se um tsunami na vida de quem não tem acesso à cultura e isso torna tudo recompensante.

Mas isso serve como um alarme para a sociedade. Os coletivos têm trazido pra si o papel que seria dos órgãos públicos: promover e educar seus munícipes à arte.

Seria até poético e lindo dizer isso, mas na prática é mais difícil do que não encontrar laranja num laranjal, visto que os espaços disponíveis para realizar os eventos têm sido cada vez mais escassos, seja em Camaçari, Feira de Santana ou Salvador, por exemplo – diferente dos casos laranjas que vemos por aí, no mínimo, umas 17 vezes por dia.

A resistência começa na arte e aqui na Bahia alternativa, fora do circuito caetanesco, os coletivos são os que segura a mão do outro por aqui. O elo de ligação entre o público e o produto de origem artística genuína da cidade tem sido os coletivos, sem praticamente nenhum investimento ou apoio de iniciativa pública, muito menos privada.

Faustino Menezes, músico, produtor e ativista cultural. Escreve as quintas a cada duas semanas. 

jornalismo@destaque1.com

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