Uma professora da rede municipal de Camaçari denuncia episódio de racismo religioso por parte de estudantes e familiares de alunos da Escola Municipal Rural de Boa União, em Catu de Abrantes. De acordo com Sueli Santana, de 51 anos, professora e candomblecista, as falas preconceituosas tiveram início em janeiro deste ano, mas pioraram em junho. O ápice das agressões ocorreu quando foi alvo de pedradas em sala de aula.
Conforme conta Sueli, um material de valorização da cultura afro-brasileira, disponibilizado pela Secretaria de Educação de Camaçari (Seduc), foi criticado por pais de estudantes, que teriam alegado que seus filhos não deveriam ter acesso. As declarações dos familiares não se limitariam aos conteúdos ensinados na sala de aula, mas passaram a atingir Sueli quando os ataques foram direcionados à sua religião. “Nossas famílias não têm contato com esse tipo de gente”, teria dito um dos pais à professora.
O caso foi registrado na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam/Camaçari), nesta quinta-feira (21) e é investigado como lesão corporal e injúria. De acordo com a Polícia Civil, oitivas e diligências estão em andamento e os fatos são apurados pela unidade especializada. A situação ocorreu em uma turma do ensino fundamental I, e a professora reiterou ao Destaque1 que os pais que teriam endossado os comportamentos agressivos deveriam ser os responsabilizados.
Desde 2003 as escolas públicas e particulares são obrigadas a incluir no conteúdo programático o ensino da cultura e história afro-brasileira aos estudantes de ensino médio e fundamental, conforme a Lei 10.639/03, que estabelece ainda a inclusão do Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar. Este ano, foi a primeira vez que o feriado foi comemorado nacionalmente.
“O caso ocorrido em Camaçari é o movimento inverso que nos fez com muita luta e reivindicação, celebrar o primeiro feriado da Consciência Negra vivido no dia 20 de novembro”, lamenta a diretora do Sindicato dos Professores de Camaçari (Sispec) e secretária de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ana Carla Fagundes. “Esta situação nos impacta porque assistimos uma professora sendo atacada no ambiente de trabalho por conta de sua religião. É inaceitável essa prática racista em um ambiente que deveria ser espaço de debate da Lei 10.639”, diz a sindicalista.
Em nota, a Seduc informa que iniciou a apuração dos fatos e realiza oitivas com os envolvidos. “A Seduc reitera seu compromisso com a valorização da diversidade e do respeito às diferenças, sejam elas relacionadas a crenças, gênero ou cor, repudiando qualquer forma de discriminação”, diz trecho do comunicado.





