Cultura, literatura, conhecimento e ancestralidade são palavras que podem resumir a primeira Festa Literária de Camaçari (Felizcam), realizada nos últimos dias 3 e 4 de dezembro, na Cidade do Saber. No evento, artistas do município e de fora ganharam espaço para exposição do trabalho e realização de debates e oficinas.
A Felizcam foi realizada pela prefeitura de Camaçari, através das secretarias de Cultura (Secult) e Educação (Seduc), reunindo cerca de mil pessoas no primeiro dia, entre público infantil, juvenil e adulto, de acordo com a organização do evento. De acordo com o titular da Seduc, Márcio Neves, a Educação e a Cultura precisaram andar de mãos dadas para a realização da festa.
“A Secretaria de Cultura juntou com a Secretaria de Educação e promovemos esse grande projeto que é a Felizcam, nossa festa literária, no qual, acredito que vão sair grandes frutos. Os autores estão se apresentando, estimulando e fomentando para que as nossas crianças e estudantes também sejam escritores . O fomento não é só da leitura, mas que eles possam também serem futuros escritores”, destaca.

Além da exposição de escritores, grupos étnicos raciais tiveram espaço para exposição de arte e artesanato. À frente da Secult, Elci Freitas explicou que a cultura e a educação caminharam juntos para realizar o evento.
“Nossos mestres de cultura foram homenageados no primeiro dia, toda a Felizcam leva o nome dos nossos mestres, entendendo que a cultura e a educação estão conectadas. Nessa mesma linha, viemos juntos, a Secretaria de Educação com Secretaria de Cultura, fazer a primeira festa literária. Um momento significante e único para a cidade”, afirma

O evento recebeu a curadoria técnica dos doutores em Literatura e Cultura Marielson Carvalho e Joseane Maytê Sousa. “As discussões foram muito potentes, os alunos estavam prestando atenção em cada detalhe, super concentrados, isso é uma riqueza. O que a gente mais quer fazer nessa festa literária, é promover a leitura, fomentar o leitor e o pensamento intelectual dos nossos estudantes, além de fazer eles pensarem que também podem ser autores”, explica a curadora.

Assista:
A Cidade do Saber foi divida em espaços que reverenciaram artistas de Camaçari como a sambadeira da Chagança Feminina Dona Bete, a líder do grupo Espermacete Mestre Nildes, o mestre griô Seu Dudu, o coordenador do Boi da Estrela Mestre Careca e o poeta Bule-Bule. Ao Destaque1, o cordelista se mostrou feliz ao receber a homenagem.
“É um sentimento de justiça. Porque eu não vim buscar isso. Cheguei aqui [em Camaçari] em 68, doei minha infância nessa terra, recebi o que foi justo que eles pagassem mas eu doei muito mais do que recebi. Sabe por quê? Quando você tem certeza que encontrou um jovem como você, que vem até a mim sabendo a quem está vindo, você teve alguém para lhe dizer isso antes, alguém para lhe preparar. Dessa forma o meu saber, por mais rude que seja, separa-se algo e tem alguma coisa de importante. Então vamos vibrar com isso”

O autor de “O Grande Rei”, Plínio Moura aproveitou o momento para expor a obra, lançada em março deste ano, e comemorar que teve a ponta do seu pincel no evento, ficando responsável pelo desenvolvimento das artes em aquarela da Felizcam. “Quando a pessoa escolhe ler um livro, ela está tendo acesso a um material de pesquisa, que, as vezes, a vida toda da pessoa está ali. Cinco, dez anos de pesquisa e, não raro, a vida inteira. Quando você lê um livro, você está acessando esse material por um valor que te economiza de ter que viver essas experiências. E isso é muito importante, né? Você escolher um livro que complete o quebra cabeça da sua vida”, enfatizou o escritor.

As crianças participaram da festa como expectadores, mas também como escritores. Esse é o caso de Ícaro Filho que, com apenas 9 anos, lançou o primeiro livro “Reino Encantado de Uma Cor Só” e realizou um projeto que passou para o papel histórias contadas por crianças mais novas gratuitamente. Agora com 13 anos, o estudante tem o projeto ‘Contos História’.
“Eu passava nas escolas mostrando que as crianças eram capazes. Mas um dia, uma criança me perguntou ‘tá, eu entendi que sou capaz. Mas eu quero escrever um livro que nem você, como que eu faço?’. E assim nasceu o projeto Contos História e eu dou a oportunidade delas fazerem a mesma coisa que eu fiz com meu pai: no caso, meu pai me ouviu e escreveu minha história. Eu vou ouvir as histórias das crianças e escrever para elas em um processo totalmente gratuito”, conta.

Quem também estava presente foi a escritora e mestre em História Política Rafa Cardoso, com uma sessão de autógrafos do novo livro “Conflitos, Resistência e Luta por Democracia: Uma história Sobre a Ditadura Militar em Camaçari”, fruto da dissertação de mestrado e lançado em outubro.
Em um dos stands, Kamara Pataxó expôs e comercializou o trabalho manual que a família realiza no “Grupo Patamiona Pataxó”. Kamara também é criadora da loja “Ponto Com Variedades”, que responsavel pela confecção de brinquedos tradicionais como pião e iôiô, além de brinquedos lúdicos e didáticos que além de entreter, auxiliam no desenvolvimento da coordenação motora e aprendizagem da criança.
Para moradora de Barra do Jacuípe, estar a Felizcam é garantir respeito e fazer com que as pessoas ente há espaço para todos. “Eu não posso ficar na minha bolha, no meu mundo, e não me incluir. Eu preciso me incluir, eu preciso estar. É importante a gente ter esses eventos para eu poder fazer isso: me incluir no espaço e assim buscar meu respeito, minha notoriedade”.









