Sempre que publico um artigo aqui, me divirto com os comentários e reações, e fico surpresa com quem diz que gosta da minha forma de escrever, principalmente porque sempre acho meus textos péssimos. Uma frase que repito com constância, principalmente com minhas amigas, é que eu tenho muita raiva que nós, mulheres, sofremos com síndrome de impostora, enquanto os homens mais medíocres acham que são a “bala que matou Kennedy”. Essa piada, afinal, traduz perfeitamente a construção das mulheres dentro da sociedade patriarcal atual.
Um tema recorrente em redes sociais e mesas de bares, por exemplo, é o “rachar a conta” em um encontro de casal hétero. Já vi defesas masculinas de que, se a mulher luta tanto por igualdade de gênero, então a conta tem que ser dividida, e eu sempre me divirto, porque essas falas refletem uma visão deturpada do feminismo. Fico perplexa sobre como termina um debate tão sério sobre as conquistas dos direitos das mulheres, inclusive na luta diária de permanecermos vivas numa sociedade que nos mata por qualquer motivo.
Confesso que o motivador para minha escrita foi o caso de Itumbiara, município de Goiás, onde um pai de dois filhos, por não aceitar o fim do relacionamento com a mãe, assassinou as duas crianças e em seguida cometeu suicídio. Convivemos com notícias de feminicídio constantes, mas esse caso, em especial, elevou o grau de perversidade e senso de propriedade desse homem sobre o corpo da mulher, pois, em vez de assassiná-la, ele optou por matá-la de outra forma, tirando seus dois filhos e deixando-a viva para sobreviver sem alma.
Imagina a dor de uma mulher que perdeu os seus dois filhos porque seu ex-marido não aceitou a decisão de um divórcio. Para além dessa dor, essa mulher é julgada por uma sociedade machista, que procura motivos para justificar todos esses crimes. Em redes sociais, li sobre homens que falaram: “era só matar ela, não precisava matar os filhos”, e é essa a opinião de muitos. A vida de uma mulher vale muito pouco.
Nessas situações, eu sempre me questiono sobre o quão doentes as pessoas são. Eu tenho certeza que as pessoas externam o pior de si na internet, principalmente por trás de fakes, mas é um espelho do que somos enquanto sociedade.
No dia 4 de fevereiro de 2026, o governo federal, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário assinaram o “Pacto Nacional Brasil de Enfretamento ao Feminicídio”. Essa iniciativa surge em resposta à crescente violência de gênero no país. O pacto reconhece a violência contra mulheres como uma crise estrutural que requer uma abordagem coordenada e permanente.
No ano de 2025, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil registrou o recorde histórico de 1.470 feminicídios, o que representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.
O feminicídio é a culminância do ciclo de violência. Uma mulher que é assassinada já sofreu violência psicológica, patrimonial, moral, sexual e, na maioria dos casos, não tem nem a noção do que vive, e, quando tem, sente vergonha em pedir ajuda.
Apesar de uma legislação consolidada este ano, comemorando 20 anos de Lei Maria da Penha, consigo ver as fragilidades da nossa rede de proteção à mulher. Já acompanhei mulheres agredidas em delegacias especializadas de atendimento, e posso dizer que, ainda que as delegadas sejam mulheres, enquanto o restante do corpo técnico for composto por figuras masculinas, a chance de ocorrer falta de sensibilidade às vítimas que chegam para formalizar as agressões é alta.
É um desafio da sociedade nos manter vivas, pensando, inclusive, que muitas mulheres são machistas, porque foram educadas a honrar os homens, defendê-los quando são criminosos e justificar que “ele é um menino e pode errar”.
Brinco que a fase adulta dos homens começa na terceira idade, enquanto a mulher assume a responsabilidade de carregar o mundo nas costas antes da primeira menstruação. Consigo lembrar da primeira vez que fui assediada na rua. Eu tinha apenas 7 anos, e chorei bastante. Minha mãe, ao me acolher, me alertou que era apenas o começo, que eu conviveria com aquilo para o resto da vida. Apesar de hoje entender e não sofrer tanto, eu não aceito que normalizem comportamentos que levam tantas de nós para a vala. Parem de nos matar.

Iana Cedraz é geógrafa e apaixonada por Camaçari, vascaína, mãe de Hector e Mel, dois gatinhos, observa o espaço e fofoca a respeito.
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