O Spotify e o streaming mudaram minha vida e a da música

Desde que assinei o Spotify não sei mais o que é baixar música da internet, comprar CD ou essas coisas. E é realmente bem sério como o streaming mudou nosso consumo de música.

Parece que finalmente a música voltou a ser rentável para quem vende (o lojista) e quem produz (o artista). E o melhor: sem necessariamente precisar de grandes organizações (gravadoras) por trás.

Ser artista independente é possível e se sustentar com isso também. Agora… é preciso ter organização, qualidade e expertise inovadora.

Eu venho falando há muito tempo nesta coluna sobre o hip-hop, mas, acredite, não é à toa. Além de ser um som que vem inovando em todos os sentidos – visual, sonoro e lírico -, é também o que melhor tá sabendo usar no momento o hype dos streamings.

Primeiro que eles já sacaram há muito tempo que é muito melhor começar com singles de no máximo 3 minutos do que já lançando um monte de compilado de músicas que você escreveu há anos de uma vez só em 1 hora.

É preciso, em menos tempo possível, formar público, incentivá-los a quererem escutar seu som, a acostumá-los com sua linguagem e mantê-los sempre interessados no seu trampo. É difícil, é. Mas é possível. E consegue quem quer.

O imediatismo conta. Mas a organização também.

Não dá pra lançar um som na rua e achar que só isso será suficiente para subir de nível no game da música. Tem que ralar. Tem que fazer seu som chegar ao máximo de lugares e pessoas possíveis e isso não necessariamente queira dizer que você precisará sair tocando por tudo o que é lugar. Se você fizer isso antes de que te conheçam não surtirá o efeito que você espera. Não dá pra tocar numa cidade em que ninguém nunca nem ouviu falar por lá.

Ainda há os arcaicos que acham essa a melhor maneira de divulgar seu trabalho. Eu senti, na pele, que a parada é diferente.

Um exemplo é o Boogarins, banda goiana de rock psicodélico que só ficou definitivamente conhecida após começar a divulgar seu trampo por e-mail para vários selos e rádios norte-americanas. Só então fecharam grandes turnês na gringa e passaporte em praticamente todos os grandes festivais de música alternativa do Brasil, além de lotar as casas de shows pequenas deste solo canarinho. Pra vocês terem noção, eles se tornaram uma das poucas bandas mais conhecidas internacionalmente que no próprio Brasil.

É um case de grandessíssimo sucesso dentro do rock que soube aproveitar a era do streaming. Outro bom exemplo do que quero dizer aqui é do mineiro Fabrício, ou melhor, FBC.

Rapper da mesma geração e trupe que o Djonga, ícone do hip-hop underground nacionalmente, o FBC lançou o excelente ‘S.C.A.’ no finalzinho de 2018 e, além de contar com uma rede ampla de divulgação a partir de fãs e colegas da cena que está inserido, não satisfeito foi para as ruas de Belo Horizonte, sua cidade, para botar o disco para tocar e convidar os transeuntes a ouvirem seu álbum.

Perceba que ele não pediu para comprarem. Pediu para ouvirem. No Spotify, no Deezer, iTunes, até no YouTube. Com o “ouve meu álbum aí” ele ganha mais do que “3 por 10” hoje em dia.

Isso porque cada reprodução nessas plataformas rende um retorno acessível para o criador de conteúdo. É por isso que o comércio de mídia física está obsoleto. Plataforma e artista faturam.

Um papel importantíssimo neste processo cabe às playlists. Geralmente criadas pelos próprios serviços, elas costumam aproximar as músicas do artista a um potencial público que tem preguiça de pesquisar por sons novos e deixa com as listas oficiais esta missão.

E aqui entra um fator importantíssimo em nosso “debate”. Pesquisas recentes mostram que grande parte dos usuários se entregaram de corpo e alma às experiências do streaming (neste caso o Spotify, claro). Cerca de 71% disseram que a descoberta de músicas no Spotify melhoram seu humor; 72% afirmam que isso afeta sua felicidade; entre outros dados interessantíssimos.

Atualmente o Spotify está presente em quase 80 países e possui cerca de 200 milhões de usuários, segundo dados da própria empresa.

Da lama ao cao$

Foto: Divulgação

E isso tudo leva a um outro ponto. De acordo com o portal Mobile Time, o Spotify registrou uma receita de 1,35 bilhão de euros no terceiro trimestre de 2018, incremento de 30% ante 1 bilhão de euros um ano antes. O lucro líquido da empresa foi de 43 milhões de euros, uma melhora significativa ante um prejuízo de 278 milhões de euros no mesmo período do ano passado.

Deu pra entender? Ah, pera que tem mais. Segundo o UOL Notícias, neste interessante artigo de fevereiro de 2018, só de royalties e distribuição foram gastos o equivalente a 85% de toda a receita, isso sem contar salários, marketing, desenvolvimento de produtos e outros custos. Ou seja, quem produz o conteúdo (o artista, o selo, gravadora, etc) vem ficando com a maior parte do bolo.

Em 2018 a plataforma, após dez anos funcionando praticamente sem lucro, começou a ter seu retorno líquido e tem tudo para continuar crescendo cada vez nos próximos anos. O fortalecimento (não dependência, lógico) de mecanismos como esses só colaboram com o bem e a independência da música, principalmente a alternativa, a mais carente de monetização neste momento.

E é isso. Bora consumir música, então? Deixa aí nos comentários suas dicas de músicas, álbum, artistas, podcasts ou playlists que vocês gostam. Quem sabe eu não escuto algumas coisas novas também.

Faustino Menezes, músico, produtor e ativista cultural. Escreve as quintas a cada duas semanas. 

jornalismo@destaque1.com

2 comentários em “O Spotify e o streaming mudaram minha vida e a da música

  • quinta-feira, 31 de janeiro de 2019 em 16:38
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    É a evolução da linguagem musical na rede , não Se lançam mais discos estamos na era dos singles

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    • sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019 em 10:32
      Permalink

      Isso mesmo, man. A visão é essa!

      Resposta

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