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Não adianta chorar pelo ‘leite condensado’, por Kaique Ara

É chegada a hora de tirarmos os doces de mau-caratismo e guloseimas de incapacidade da boca do atual presidente.

Kaique Ara

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Foto: Reprodução

Provavelmente muitos de nós já ouvimos um trecho da música de Cazuza que diz: “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Pois é. “O Tempo Não Para”, canção lançada em 1988, é um marco da MPB e um símbolo de resistência política. Apesar da idade, acreditem, essa música é muito atual.

Esta semana o Brasil foi surpreendido pela enxurrada de memes e publicações satíricas sobre os gastos do cartão corporativo presidencial. O presidente que na primeira semana de janeiro, dirigindo-se aos seus apoiadores, afirmando que “o Brasil está quebrado e eu não consigo fazer nada”, deve uma explicação sobre os gastos de mais de R$ 123 milhões em sobremesas, R$ 32 milhões em pizzas e refrigerantes, R$ 15 milhões em leite condensado, R$ 6 milhões em frutos do mar, R$ 2,5 milhões com vinhos, dentre outros gastos absurdos do seu cartão corporativo presidencial. Tais informações foram checadas no site oficial da transparência, que, por sinal, esteve fora do ar até o momento de finalização deste texto.

Além do boicote no site, contrariando a lei da transparência nacional, o governo omitiu-se de comentar de forma clara os gastos feitos pelo presidente, divulgados pela imprensa nacional e internacional; o total ultrapassa a marca de R$ 1 bilhão em mantimentos para o próprio consumo, só em 2020. Restou apenas, de forma avacalhada, uma resposta recheada de palavrões, proferida pelo presidente Bolsonaro (sem partido) em um almoço com seus apoiadores na última quarta-feira (27).

Em um país marcado por uma profunda crise sanitária, pela instabilidade econômica, pelo alto índice de desemprego, volta da fome e pela imagem crescente do trabalho infantil, seria razoável pensar que os privilégios sustentados pelo suor do nosso povo poderiam ser transformados em investimento nas áreas necessárias. Só o valor dos chicletes que refrescaram a boca do presidente da república, por exemplo, poderiam ter custeado mais de 3.600 auxílios emergenciais.

Pois é, caros leitores, o povo brasileiro, que chora pelas mais de 220 mil vítimas do Covid-19, pela perda dos milhões de postos de trabalho, com a inflação sufocando nossa sobrevivência, não pode mais chorar pelo “leite condensado”. É chegado a hora de não permitirmos que haja a repetição do passado sombrio que marcou a nossa história com a fome de muitos, a perseguição da mídia, da liberdade política e ideológica, que serviu como inspiração do poeta Cazuza na sua obra. É chegada a hora de tirarmos os doces de mau-caratismo e guloseimas de incapacidade da boca do atual presidente da república e construir o caminho para retomar as condições de uma vida digna de todos nós, brasileiros e brasileiras.

Kaique Ara é professor de História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas.

*Este espaço é plural e tem o objetivo de garantir a difusão de ideias e pensamentos. Os artigos publicados neste ambiente buscam fomentar a liberdade de expressão e livre manifestação do autor(a), no entanto, não necessariamente representam a opinião do Destaque1.

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