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Mulheres de Camaçari: Fernanda Caroline faz da arte ferramenta de resistência

Mirelle Lima

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Foi na infância composta por passeios em eventos culturais e ilhas da região que a camaçariense Fernanda Caroline se apaixonou pela arte. Aos 23 anos, a estudante de Belas Artes na Universidade Federal da Bahia (UFBA), trabalha com body piercer, tatuagem e desenho no Nagô Estúdio.

Além disso, a jovem já transitou por diversos âmbitos da cultura no município. Na Cidade do Saber, praticou Dança Contemporânea e integrou o Conservatório de Música. Fernanda também já fez aulas de Teatro de Máscaras.

Em entrevista ao Destaque1 a artista conta que é apaixonada pelo que faz, pois se sente muito honrada em ajudar a elevar a autoestima das pessoas. “Trabalho com body piercer há quatro anos, e tatuo há três. Primeiro eu conheci a prática de fazer perfuração e modificação no corpo com furos, e depois eu vim tatuar. Eu fui trabalhar em um estúdio de um tatuador muito conhecido aqui em Camaçari, chamado Jaguara, e aí eu tive oportunidade de ter contato com a profissão e fui me especializando mesmo e me apaixonei. Eu acho muito incrível, me sinto muito honrada de ter escolhido essa arte, que é uma propagação permanente, eu faço o conceito da arte, desenvolvo questões da pessoa, junto com meus pensamentos e aí elaboro algo bem autêntico e original, é bem gratificante ver a pessoa, como ela se sentiu com a autoestima elevada depois de fazer a tatuagem, é muito bom”, explica.

Foto: Patrick Abreu/Destaque1

Ao ver que há poucas mulheres negras no ramo de tatuagem, Fernanda se sentiu inspirada a ter contato com essas mulheres para que possam encorajar outras. “O que me motivou mais foi o contato com pessoas negras, porque veio passar a ter mulheres negras nesse ramo agora, então foi mais importante ainda ter esse contato, pra poder dar força para outras mulheres virem e fazer”, conta.

De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o mercado de tatuagem cresce 25% ao ano no país, o que resulta em mais de 150 mil estúdios em todo território nacional. No entanto, apesar do grande interesse do público, a artista relata que sente uma segregação ao se tratar de tatuagem em pele negra. Ela também ressalta que por ter um conceito afro-referenciado o Nagô Estúdio acaba sofrendo discriminação por parte do público.

“O contexto negro de tatuagem é um campo muito excluso, porque hoje o capital é movido por moda, então se você reparar nos perfis de tatuadores mais badalados, raramente colocam pele negra pra divulgar, porque o capital ele não quer isso, não quer divulgar isso, o que nos distancia muito da nossa prática artística. Muitas pessoas também não valorizam o trabalho autoral, aqui em Camaçari infelizmente a gente não tem essa cultura que compra arte autoral, então a gente tem dificuldade por isso, e também por ser negro né, a gente sente dificuldade em o cliente vir até o estúdio, porque ele não é um padrão de estúdio, ele é diferenciado, com nossa marca, com um conceito afro-referenciado, então eu acho que isso também causa essa exclusão. Muitas pessoas não se sentem a vontade de fazer com a gente, por sermos negros, damos o orçamento, mas a pessoa não se sente a vontade e vai fazer com um tatuador branco pelo triplo do valor”, revela.

Foto: Patrick Abreu/Destaque1

Apesar das barreiras, Fernanda encontra forças para continuar na sua ancestralidade. Ela também busca se unir com pessoas da mesma luta para resistir aos impasses. “Eu venho de uma ancestralidade de muita resistência, então só esse fato e carregar esses valores ancestrais de poder, de luta, de confronto mesmo, já me inspira. Outra coisa que me inspira é estar em contato com pessoas que estão nessa mesma luta, pra a gente ter esse diálogo, fazer um aquilombamento dessa resistência pra podermos continuar, se unir pra enfrentar essas barreiras”, enfatiza.

Foto: Patrick Abreu/Destaque1

Apesar de compreender a importância do Dia Internacional da Mulher, Fernanda explica que a data não contempla mulheres negras, pois na época em que o dia foi instituído, mulheres brancas lutavam por direitos como do voto, já mulheres negras ainda eram escravizadas e lutavam para serem reconhecidas ao menos como humanas. Para ela, o dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é o que a representa melhor.

 

Com o crescente debate sobre feminismo no Brasil, é necessário fazer o recorte racial para atender às demandas de todas as mulheres. Para a jovem, entender as diferenças e unir forças é a melhor maneira de lutar.

Eu acho que deve haver uma conscientização com todas do seu lugar de fala. Se a mulher negra passa por problemas que a mulher branca não passa, tem que haver uma humildade do reconhecimento disso, então a partir do momento que houver essa conscientização, a gente não vai ficar discutindo. Cada um carrega suas lutas, e eu acho que deve se unir forças pra cada uma lutar pelo que enfrenta, porque realmente é distinta, a imagem da mulher branca é mais aceitável para a indústria, há um padrão de beleza que exclui as mulheres negras.

Entre as referências a artista destaca pessoas próximas como a vó Dulce Pereira, baiana de acarajé, com quem aprendeu conhecimentos anscentrais, Kátia Letícia, Marineuza Araújo, Kalundewa e Jacson Almeida. Além de personalidades como Carolina de Jesus, Marielle Franco,  Zeferinas, e Lelia Gonzalez.

O Nagô Stúdio fica localizado na Avenida Luiz Gonzaga, no Phoc II.

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