Há algo profundamente assustador no fato de que, quase um século depois de as brasileiras conquistarem o direito ao voto, ainda seja necessário defender publicamente a própria existência desse direito. Em 1932, o Brasil reconheceu às mulheres o direito de votar e serem votadas. A conquista não caiu do céu, tampouco foi uma concessão generosa dos homens que ocupavam o poder. Foi resultado de décadas de mobilização de mulheres que desafiaram uma sociedade que entendia a política como território masculino.
Passados 94 anos, seria razoável imaginar que a discussão estivesse em outro estágio: como ampliar a participação feminina, garantir igualdade de oportunidades e fazer com que mais mulheres ocupassem os espaços de decisão.
Mas, em 2026, discursos que questionam a capacidade das mulheres de votar voltaram a circular. Influenciadores digitais, candidatos ou até mesmo políticos eleitos voltam atacar o voto feminino e reacendem a narrativa de que nem todo lugar está para a mulher. É pavoroso!
E, por mais que tenhamos avançado, precisamos permanecer vigilantes diante de movimentos que, inicialmente, podem parecer minoritários ou sem força suficiente para ameaçar direitos conquistados. A história, entretanto, nos ensina que nenhum direito deve ser tratado como permanente.
Por isso, precisamos manter a memória histórica viva. O Brasil é o país que, uma década atrás, foi conivente com o maior golpe pós-redemocratização: o impeachment de Dilma Rousseff é um alerta eminente, no qual a reflexão de Simone de Beauvoir nos deixou:
“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.
Durante séculos, ensinaram às mulheres qual deveria ser seu lugar. Primeiro, disseram que a política não lhes pertencia. Depois, que o trabalho fora de casa era inadequado. Mais tarde, que determinadas profissões não eram femininas. Hoje, em alguns círculos, reaparece uma versão atualizada da mesma ideia: a mulher pode até ter voz, desde que sua voz não questione a ordem estabelecida. É por isso que não basta votar em mulheres.
Precisamos perguntar: quais mulheres estamos elegendo e quais direitos elas defendem quando chegam ao poder? Representatividade, portanto, não é apenas uma questão de gênero. É também uma questão de projeto político.
O Brasil ainda está longe de ter uma representação política proporcional à presença das mulheres na sociedade. Nas eleições de 2022, das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, só 91 foram para mulheres. No Senado, o cenário aperta ainda mais: de 81 cadeiras, apenas 16 são ocupadas por senadoras. No total, só 18% das 594 posições do Congresso Nacional são ocupadas por mulheres (Justiça Eleitoral).
O Brasil aparece na última posição entre os países da América Latina e na 134ª posição no ranking global de representatividade feminina no Parlamento (Instituto Esfera). Ou seja: somos maioria entre quem vota, mas ainda somos minoria entre quem decide. Essa conta precisa ser discutida.
Para um país que obteve sua independência sob o punho de uma mulher, seguimos reduzindo, limitando e retirando as mãos femininas das tomadas de decisões. Uma democracia em que metade da população permanece sub-representada não consegue refletir plenamente a sociedade que pretende governar.
E aqui está o ponto que considero fundamental para o próximo ciclo eleitoral: não precisamos transformar o voto feminino em um voto automático. Não precisamos dizer que toda mulher deve votar em qualquer mulher simplesmente porque ela é mulher. Precisamos fazer algo muito mais poderoso: votar em mulheres que lutam para que outras mulheres continuem tendo direitos.
Mulheres que defendam a participação feminina na política. Mulheres que não tratem a violência contra a mulher como detalhe. Mulheres que compreendam que igualdade não significa retirar direitos dos homens, mas impedir que o gênero determine quem pode mandar, trabalhar, estudar, decidir sobre o próprio corpo ou ocupar espaços de poder.

Laiana França é mercadóloga, pós-graduanda em Gestão Empresarial e estudante de Direito, além de feminista e militante dos direitos humanos.
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