Naquela tarde de sábado, a biblioteca/laboratório do Goethe Institut-Salvador, espaço intimista — e, mesmo na capital baiana, onde tudo é questão de perspectiva, com um ar meio subterrâneo —, aos poucos se encheu de gente voltada para o pequeno palco. Por volta das 17h daquele 6 de julho, o autor Marcus Vinícius Rodrigues começou a falar sobre o seu mais novo lançamento, o livro de contos “Motel Mustang”.
As histórias que se entrelaçam nessa obra retratam um acontecimento real que marcou Salvador em maio de 1989. A capital baiana vivia um intenso período de chuvas, e, naquela noite, um deslizamento de terra matou nove pessoas que estavam em um motel localizado na Avenida Suburbana. Muito se pode conhecer através dos registros jornalísticos, ou mesmo da Defesa Civil da época, sobre a tragédia, mas há questões inacessíveis a essas esferas, questões essas que o autor de “Motel Mustang” explora através da ficção.
O que pensavam e sentiam as vítimas antes da tragédia? E diante da iminência do deslizamento, tinham medo? Diante das notícias de mortes e deslizamentos, e conscientes da ameaçadora encosta atrás do motel, acreditavam que corriam sério risco ou convenciam a si mesmos de que tudo ficaria bem, que iriam para casa no dia seguinte? Planos futuros, problemas de relacionamento, frustrações com dinheiro, trabalho, a vida, pormenores cotidianos sem dúvida também ocorriam às vítimas da tragédia, e ganham luz nos personagens, ainda que tenham sido, inexoravelmente, soterrados também.
“Pensou ter ouvido um silêncio, como se houvesse uma pausa no mundo. Parou. Estava no meio do caminho. Tanto fazia seguir ou voltar. Ouviu um rugido, um estalo vindo de algum lugar indefinido. Por todos os lados […]. O céu inteiro desabou naquele corredor”.
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Nesse livro de contos, os personagens ganham a profundidade de personagens de romance, e então, durante a leitura, fez sentido ouvir no lançamento que a obra poderia ser lida como um “romance construível”, ou seja, seria possível manejar os personagens, as histórias, de modo a criar uma narrativa mais longa e concatenada. Os contos, no entanto, da forma que estão apresentados, claramente se conectam, o que pode ser uma experiência interessante para o leitor.
Para além da tragédia como centro que une as histórias, o autor tem o cuidado de criar uma atmosfera muito verossímil, e imagino como deve ser diferente lê-las hoje sendo alguém que viveu as décadas de 80/90. Desde menções a novelas e artistas à ameaça do vírus da AIDS, cada elemento, penso, foi devidamente calculado para gerar um efeito de leitura.
“Motel Mustang” é uma publicação de Marcus Vinícius Rodrigues, que, além de escritor, é advogado e professor. A obra pode ser adquirida no site da P55 Edição.
Esta é a segunda resenha de uma breve série sobre livros de autores baianos que serão publicadas semanalmente, às sextas. A intenção é instigar o leitor a conhecer e incentivar o trabalho desses autores, seja através da obra resenhada ou de outras publicações.
Leia aqui a primeira resenha da série, sobre o livro “Caixa de Domingos”, de Léa Rios.

Ayla Cedraz é graduada em Letras Vernáculas com Inglês pela Ufba e mestranda em Literatura e Cultura pela mesma universidade.
*Este espaço é plural e tem o objetivo de garantir a difusão de ideias e pensamentos. Os artigos publicados neste ambiente buscam fomentar a liberdade de expressão e livre manifestação do autor(a), no entanto, não necessariamente representam a opinião do Destaque1.




