“Ah, ele sempre foi um bom pai, chegou ao limite”, “Nunca imaginamos isso dele” e “Com certeza ela fez alguma coisa”. Frases como essas ainda ecoam toda vez que um novo caso de feminicídio estampa os noticiários. Diante do aumento constante dos assassinatos de mulheres apenas por serem mulheres, muitos ainda dizem que elas estão “exagerando”. A proposta deste texto parte justamente desse absurdo. Não para concordar, é claro, mas para expor o quanto essa ironia representa, de forma trágica, a realidade brasileira.
Em 2024, quatro brasileiras foram assassinadas por dia. É o que aponta o Mapa da Violência do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os feminicídios, que haviam apresentado uma leve queda no ano anterior, voltaram a crescer e atingiram o maior número dos últimos anos. Já os casos de estupro chegaram a 83.114, o maior registro dos últimos cinco anos, sendo que 86% das vítimas eram do sexo feminino. É, meus amigos… A pátria amada esqueceu de amar suas mulheres. O solo miscigenado à força, construído pelo estupro de negras e indígenas, não perdeu o costume quando o assunto é a dor de suas filhas.
O aumento do feminicídio no Brasil é resultado direto do machismo estrutural, do romantismo tóxico e da falência do sistema de Justiça em garantir o mais básico: o direito à vida das mulheres. Em cerca de 70% a 88% dos casos, o agressor é parceiro ou ex-parceiro da vítima. Durante anos, o assassinato de mulheres por razão de gênero foi tratado como “crime passional”, uma espécie de desequilíbrio motivado por amor. Essa visão nasce de uma educação social que coloca o homem como figura central, dominante, racional e impune, enquanto a mulher deve ser submissa, frágil e passível de correção. Quem dera o feminicídio fosse apenas uma distorção amorosa. Mas não é: é um projeto. É estrutura. É o reflexo direto de uma cultura na qual a mulher é tratada como posse.
O Brasil é um país cuja população é 52% feminina. Ainda assim, continuamos sendo assassinadas, violentadas, estupradas, silenciadas e excluídas. Mesmo sendo a maioria, nossa existência segue desvalorizada e colocada em risco. O Estado é falho. O sistema que deveria nos proteger é moroso, negligente e omisso. Leis como a Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015) são marcos históricos, sem dúvida. Mas sua aplicação, infelizmente, mostra-se ineficiente. O feminicídio é, muitas vezes, a etapa final de uma longa cadeia de violências ignoradas. É urgente uma reavaliação nos protocolos de proteção às mulheres com histórico de violência doméstica, até porque, na maioria dos casos, o agressor é aquele mesmo: o “pai de família”.
Se o título deste artigo lhe soou exagerado, talvez seja porque a realidade também é. Uma mulher foi assassinada a cada 17 horas no Brasil em 2024. Os números do feminicídio são exagerados. A naturalização da violência é exagerada. A conivência social é exagerada.
Portanto, não são as mulheres que estão exagerando. Talvez seja este país que insiste em tratar o feminicídio como um “erro de percurso”, algo que se minimiza, se justifica, se esquece. Se o texto lhe pareceu irônico ou até ácido, foi proposital. Porque o que mais falta na cobertura e no debate público sobre feminicídio é indignação verdadeira. Enquanto houver quem relativize, banalize ou silencie, o número de mulheres mortas continuará crescendo, com ou sem ironia.

Laiana França é mercadóloga, pós-graduada em Gestão Empresarial, estudante de Direito e mestranda em Economia, além de feminista e militante dos direitos humanos.
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