Em Camaçari, 86,8% dos políticos que concorrem aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador nas eleições municipais de 2024 são negros. Seguindo a tendência nacional, que tem pela segunda vez o número de candidatos autodeclarados pretos e pardos maior que o de postulantes brancos, o município indica caminhar para uma eleição mais próxima da sua realidade, que espelha os 81% de população negra, como aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Se comparado à eleição de 2020, houve um aumento de 3,5% em candidaturas negras, enquanto o número de postulantes autodeclarados brancos caiu em 58,3%. Os dados estão disponíveis no portal de estatísticas eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Quem são os candidatos a vereador de Camaçari?
Com exceção de três vereadores que deixam a disputa municipal deste ano, os demais políticos concorrem à reeleição. Professora Angélica (PP) e Flávio Matos (União) concorrerão como chapa majoritária, e Bispo Jair (Republicanos), vereador de quatro mandatos, não irá disputar novamente.
Entre os que concorrem às cadeiras novamente, apenas Dilson Magalhães (PP), Jorge Curvelo (União) e Tagner Cerqueira (PT) se autodeclaram brancos.
Entre os vereadores que buscam a renovação do mandato, quatro se autodeclaram pretos, sendo eles Dedel Reis (PP), Dudu do Povo (União), Ivandel Pires (União) e Niltinho (PRD). Outros 11 vereadores se identificam como pardos.
Confira:
Conforme explica o livro “Características étnico-raciais da população: classificações e identidades”, do IBGE, que versa sobre as complexidades das questões raciais no Brasil, onde a miscigenação é parte da gênese da sociedade, o critério adotado pelo instituto para a classificação de indivíduos e grupos sociais em levantamentos e pesquisas é a “cor da pele”, que pode ser branca, preta, amarela e parda, sendo a única exceção a categoria indígena, utilizada pela primeira vez no Censo Demográfico de 1991.
A primeira operação censitária do país, realizada em 1872, utilizava os termos “caboclo” para designar a população indígena, e “preto” e “pardo” eram utilizados para classificar a população escravizada ou as pessoas que teriam nascido fora do regime da escravidão, ou aqueles que foram alforriados. No segundo levantamento, “pardo” foi substituído por “mestiço”, mas a utilização do primeiro termo foi retomada em 1940.
No entanto, o Estatuto de Igualdade Racial afirma que “negro” é uma categoria racial que abrange pardos e pretos, e é a soma desses dados que quantifica a população afrodescendente no território nacional, tanto para a formulação de políticas públicas quanto para a produção de diagnósticos e indicadores sociais.
Em 2022, segundo o IBGE, a maioria da população brasileira se declarava parda, o equivalente a cerca de 92,1 milhões de pessoas, o que representa 45,3% do total. Já a população preta alcançava 10,2%, em torno de 20,6 milhões de pessoas.
Em Camaçari, 256 candidatos a vereador, entre homens e mulheres, são declarados negros (87,7% do total), com a maioria deles entre a faixa etária de 45 a 49 anos.
Entre os candidatos, 134 declarados pretos e pardos têm ensino médio completo, e 74 possuem graduação.
Gênero e raça
Enquanto a composição racial dos candidatos parece refletir a demografia local, a representação feminina ainda é desigual. Hoje, das 21 cadeiras da Câmara Municipal, 17 são ocupadas por vereadores autodeclarados pretos e pardos, sendo duas delas mulheres autodeclaradas negras: Angélica e Fafá de Senhorinho (União).
Este ano, o número de vereadores foi ampliado para 23, e a formação de uma bancada feminina no Legislativo municipal tem sido pauta de campanhas de boa parte das candidatas.
Com 54% do eleitorado feminino, em março deste ano Camaçari alcançou o marco de 200 mil eleitores e se tornou o quarto colégio eleitoral baiano com possibilidade de segundo turno. Além do município da Região Metropolitana, Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista integram a lista.

Do quantitativo total de eleitores do município, com uma população estimada em 319.394 habitantes, conforme projeção do IBGE, 111.094 dos votantes são mulheres, mas não é possível traçar um perfil racial do eleitorado, diante da alta porcentagem de abstenção de autodeclaração. Segundo consta no portal do TSE, 87,49% dos eleitores de Camaçari não informaram a cor.
Ainda que as mulheres sejam maioria em eleitores, elas não serão nem metade dos números nas urnas em 6 de outubro. Ao todo, 304 candidaturas de Camaçari foram homologadas na Justiça Eleitoral, mas apenas 99 são mulheres, e, entre elas, 86 são negras.
Todas as seis chapas majoritárias, no entanto, têm homens como candidatos a prefeito, sendo 50% deles negros. Já as candidaturas masculinas para vereador somam 195, com 172 dos postulantes autodeclarados pretos e pardos.
Disputa histórica em Camaçari
Nesta eleição, em especial, polarizada entre os candidatos Flávio Matos (União) e Luiz Caetano (PT), há a possibilidade do município ter, pela primeira vez, uma mulher negra em um cargo do Executivo.
As chapas, encabeçadas por homens de tradição política em Camaçari, têm a então vereadora Professora Angélica (PP) e a administradora Déa Santos (PSB), conhecida como Pastora Déa, como candidatas a vice-prefeita.
Ambas mulheres, evangélicas e com atuação no município, as postulantes defendem o espaço da mulher na política e propõem a criação de políticas públicas para esse público.
“Uma mulher lutadora, empreendedora, professora, vereadora, que milita também no campo evangélico, uma mulher negra”. Assim o principal articulador do time azul no município e atual prefeito, Elinaldo Araújo (União), define Angélica.
Eleita vereadora em 2020 com 937 votos, a candidata é empresária, educadora, dona de uma rede de escolas no município e chegou a concorrer ao cargo de deputada estadual em 2018, mas não foi eleita.
Antes de ser anunciada como companheira de chapa de Flávio, a candidatura de Angélica já era endossada por governistas, que afirmavam ser o nome mais forte para ocupar o cargo.
Durante coletiva de imprensa que oficializou a escolha, em 10 de abril, Angélica disse que enxerga a oportunidade como uma forma de abrir “caminhos para que as mulheres possam estar inseridas na política”.

De origem humilde e atuante na área da educação, conforme conta a vereadora, Angélica defende a implementação de políticas públicas para mulheres, e elaborou, através do seu mandato no Legislativo, projetos centrados na educação, proteção de vítimas de violência doméstica e promoção da cultura no município.
Do outro lado, a escolha de Déa para compor a chapa de Caetano foi uma surpresa, tanto para a candidata, que relata ter recebido a proposta no mesmo dia do anúncio da escolha, horas antes da coletiva de imprensa que colocaria seu nome na corrida eleitoral, quanto para os apoiadores do grupo.
Já era previsto que o petista iria anunciar uma mulher como vice da sua chapa, e o nome de Déa fortalece a pluralidade com a qual o partido busca dialogar com o eleitorado.
Enquanto Angélica vem com uma trajetória estabelecida no Legislativo, Déa, por sua vez, surge como uma novidade, com experiência na área social e atuação em comunidades evangélicas.

Administradora, pastora da Igreja Novo Tempo, no bairro Novo Horizonte, e fundadora do Instituto Mãezona, que ampara pessoas em vulnerabilidade psicossocial, Déa nunca ocupou cargos eletivos, mas disputou as eleições de 2020 como candidata a vereadora pelo Republicanos.
Antes do rompimento com o grupo de Elinaldo, por não se identificar mais com o que era feito, como revelou ao Destaque1, a candidata foi gerente na Secretaria de Desenvolvimento Social de Camaçari (Sedes) e atuou na Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza de Salvador (Sempre). Agora, aliada a Caetano, Déa afirma que as experiências em atividades de serviço social adquiridas ao longo da sua trajetória política dialogarão com a gestão, caso seja eleita.
Com a inclusão de Angélica e Déa na corrida eleitoral, a política de Camaçari entra em uma nova fase, na qual a presença feminina e negra no Executivo municipal deixa de ser apenas uma pauta de campanha e se torna uma realidade possível.
Há oito anos, o município elegia o seu primeiro prefeito negro
O ano de 2016 seria histórico para a política municipal. Elinaldo Araújo (União), o então vereador de dois mandatos que há poucos anos havia conquistado o posto de legislador mais bem votado da história de Camaçari, com 5.545 votos, concorreu à Prefeitura e foi eleito o primeiro prefeito negro do município no período pós-redemocratização do país.

Antonio Elinaldo Araújo da Silva era feirante e se orgulha das origens humildes, como reitera em comícios e encontros com lideranças. No início da carreira política, o prefeito era subestimado pelo que os adversários chamavam de “baixo grau de instrução”, e chegou a ser ridicularizado pelo seu modo de falar.
“Aqui eu fui muito humilhado por eles [opositores], por ser simples, por ser feirante”, lamentou Elinaldo durante abertura dos trabalhos legislativos deste ano.
Ligado aos movimentos populares antes do ingresso na vida pública, o prefeito é filho de Camaçari e atua no cenário político desde 2008, quando se elegeu vereador pela primeira vez.
Durante seu mandato como prefeito, Elinado promulgou a lei nº 1784/2023, que institui a Semana da Consciência Negra em Camaçari, como parte de políticas afirmativas para a população negra, e prevê palestras e ações culturais que visam o aprofundamento na história da comunidade negra no Brasil.
Em 2024, Elinaldo deixa a Prefeitura, mas se consolida como um marco na história do município, como o, até então, único prefeito negro.























