É tempo de esperançar

Os debates sobre esperança muitas vezes nos fazem acreditar na virtude que, juntamente com o amor e a fé, formam a trindade da virtude teleológica da religião cristã. Não há porque estranhar que seja assim, até porquê foi na tradição cristã que a virtude da esperança ocupou lugar de destaque. Foi essa conceituação teleológica que marcou fortemente a formação religiosa que mais influenciou a cultura ocidental.

O que já não se repetiu com a tradição filosófica. Muitos poucos filósofos gregos deram conta dessa temática, nenhum lugar de destaque fora dado no conjunto de suas doutrinas. Os textos gregos que mais se ocuparam desse tema foram os religiosos, os consagrados ao culto do mistério e ao culto dos mortos.

O cristianismo atribuiu um novo Weltanschauung (“Uma nova forma de pensar). Segundo Rocha (2005), “para os fiéis, esta história teve um começo (a criação), um ápice (a encarnação e a redenção) e terá um fim (a Jerusalém celeste), nela a esperança tem um lugar de realce, porque é sua força que sustenta a caminhada do povo de Deus através dos tempos. A fé sustentada pela palavra de Deus, dá aos que crêem a certeza das “coisas que não se vêem”, mas a realização plena desta promessa só se fará no fim dos tempos”.

Dessa forma a esperança de construir um mundo melhor vem embalando os melhores sonhos humanos. De certa forma o esperado não deve ser concebido como um termo a que se chega, um objeto que se encontra ou se recebe, como um prêmio que se consegue no fim da caminhada. Na sua essência, a esperança é, antes, um horizonte que se descortina, um apelo que nos convida a caminhar e a ir sempre adiante pelos caminhos da vida. “Esperança não é esperar, é caminhar”.

A esperança está longe de representar uma “realidade objetiva” que se pode acariciar no presente ou que se possa imaginar como algum tipo de recompensa futura, estando muito além de “algo concreto” cujo domínio se consegue no fim do caminho percorrido.  A esperança é antes de tudo uma “disposição interior” ou uma “força psíquica” que sustenta em nós o desejo de seguir caminhando.  Dessa forma a esperança só se concebe na medida que sustenta o desejo humano de prosseguir na direção de um objetivo que não se tem e que se em algum instante o tivéssemos, extinguiria o próprio élan (entusiasmo) da esperança.

Em alguma medida a esperança pode ser comparada a ideia de ato-enérgeia de Aristóteles, “enquanto princípio ontológico da constituição do ser, vale dizer, como princípio capaz de atualizar as possibilidades existenciais em um processo de atualização, que por estar sempre em movimento, não termina nunca de se atualizar. Diferentemente do ato-enteléquia, cujo télos se obtém na constituição de um objeto determinado, o ato-enérgeia, enquanto existir movimento (tempo) não termina nunca de se atualizar no processo de atualização das possibilidades ou potencialidades de nossa existência”.

O Nascimento de Jesus, animou os corações de homens e mulheres, reascendeu o desejo de seguir caminhando, renovou o sentimento de justiça e compaixão. A “paixão do possível” animou a alma peregrina impulsionando vir et mulier a caminhar pela simples alegria de caminhar e desbravar horizontes. Talvez seja essa a grande representação do Natal: fazer com que as pessoas possam continuar acreditando, possam continuar esperançando, possam continuar lutando por um mundo melhor. Pois a esperança nunca chega ao fim. Feliz natal e um próspero Ano novo!

Edvaldo Jr., historiador, pós-graduando em Direito Público Municipal, professor e palestrante. Escreve as terças a cada duas semanas. jornalismo@destaque1.com

 

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