“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Esse é um provérbio africano que significa que a educação de uma criança deve ser um compromisso coletivo, envolvendo a participação de toda a comunidade. É justamente o que diz o quarto artigo do nosso Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA: “Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.
Tudo isso ficou apitando na minha mente quando voltei de viagem mês passado. Enquanto estava sentada na cadeira do aeroporto às 3 da madrugada para pedir um carro por aplicativo, uma menina de aparentemente uns 9 anos me abordou com um papel na mão que tinha um número de telefone e nome masculino, e em palavras confusas basicamente me oferecia transporte de forma clandestina.
Quando entendi a situação, fiquei triste e com raiva. Triste porque de fato as condições sociais do nosso país colocam várias crianças como instrumento de renda de várias famílias, e raiva porque, além dela, tinha uma criança menor que ela disse ser irmã, e com elas tinha um adulto escondido observando a abordagem. Nesse dia eu fiz algo que nunca tinha feito. Pedi licença para a menina, falei que iria embora porque meu carro tinha chegado e no meio do caminho perguntei no balcão onde havia dois policiais se tinha alguém do conselho tutelar de plantão no aeroporto, explicando a situação.
Falei que entendia que era algo que a gente, enquanto sociedade, tínhamos nos acostumado a ver como normal, mas que aquilo era aliciamento e que acontecer na madrugada era ainda pior. Um policial mais velho relatou já ter visto a situação e não deu muita importância, e um mais novo levantou e disse que iria averiguar e me agradeceu.
Eu fiquei pensando nisso por muitos dias, naquele rostinho assustado. E em como aquela fase infantil é uma curva muito importante nas formações emocionais, de como outras várias crianças estão em situação igual ou pior que ela. Em nossos papéis enquanto sociedade.
Me questionei se fiz correto em falar com os policiais, se o adulto que estava com elas iria punir aquelas duas crianças. No meio das perguntas, tentei me tranquilizar que, mesmo que tivesse feito a escolha errada, eu estava tentando acertar, e no meio disso tudo pensei que minha maior dor é que nós, coletivamente, normalizamos várias coisas que não devem ser normalizadas, que crescemos acostumados com crianças “ajudando” a família em trabalhos informais, mas que não deixam de ser trabalhos. Já ouvi de amigos que “é melhor isso do que estar roubando”, e aí é que tá, criança tem realmente só que estudar, praticar esportes, ter acesso à cultura e à arte, e mesmo que saibamos dos desafios sociais e dos retrocessos que sofremos nos últimos anos, eu percebo também que a gente não se choca mais com diversos abusos infantis cotidianos, inclusive com a “adultização” e exposição infantil a conteúdos sensíveis e sexuais nas redes digitais.
E obviamente não tenho solução para problemas e desafios sociais tão sérios, mas ainda imersos em todos os nossos problemas pessoais e sociais, gostaria que você que chegou comigo até aqui faça o exercício de enxergar mais crianças que estão em situações de vulnerabilidade e pense por um momento se pode ajudá-las, se é possível fazer algo sobre a situação com a qual você se deparar.
Inclusive, há experimentos sociais que comprovam que crianças brancas expostas são sempre mais ajudadas que crianças negras na mesma situação. Até quando fizer esse exercício, tente treinar o olhar a esse recorte racial. A gente consegue ver igualmente todas as crianças?
Sei que não é um convite fácil e sei também que políticas públicas eficientes deveriam estar atendendo essas questões, mas retorno ao provérbio africano: vamos pensar como aldeia e maternar e paternar com todas as crianças que estão a nossa volta.

Iana Cedraz é geógrafa e apaixonada por Camaçari, vascaína, mãe de Hector e Mel, observa o espaço e fofoca a respeito.
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