Do barro à tradição: há mais de 40 anos, Edinaldo Araújo mantém viva a cerâmica em Camaçari

Oleiro perpetua arte que resiste ao tempo, passada de mãos em mãos.
Foto: Isabella Mota/Destaque1

Reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o distrito de Maragogipinho, em Aratuípe, no Recôncavo Baiano, ergueu-se como um dos maiores redutos de cerâmica artesanal da América Latina. Mas nem sempre ostentou esse prestígio. Quem lembra desse caminho é o oleiro Edinaldo Araújo, de 73 anos, que molda o barro desde novo e dele tira o sustento da vida. Filho de artesãos, nasceu em Nazaré das Farinhas, mas viajou à capital do estado em busca de novas oportunidades.

Do barro à tradição: há mais de 40 anos, Edinaldo Araújo mantém viva a cerâmica em Camaçari
Edinaldo Araújo é natural de Nazaré das Farinhas, mas mora em Camaçari há mais de 40 anos. Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

Hoje, repousa sua história em Areias, na orla de Camaçari, onde, no quintal de casa, mantém uma pequena oficina para produção de suas encomendas. Ali, seu Edinaldo, ou Buiá, como é conhecido, continua a tradição que atravessa gerações. Entre os quatro filhos que herdaram o ofício, ele é a memória viva de uma arte que resiste ao tempo, passada de mãos em mãos.

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“Meus pais eram praticamente oleiros, meu pai principalmente, e de repente, quando pequenos, eles estavam trabalhando no torno [equipamento para modelagem de vasos de cerâmica], eu estava sentadinho na areia, às vezes eles davam uma peça pra gente brincar, e a gente ficava brincando ali, pra não sair de perto”, relembra, em entrevista ao Destaque1.

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Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

Quarto de oito filhos, sendo cinco homens e três mulheres, Edinaldo começou a trabalhar em olarias quando tinha cerca de 12 anos, para suprir as necessidades financeiras da casa, diante da ausência do pai, que foi trabalhar na capital baiana. “Filho de peixe, se torna peixinho, como diz o velho ditado, e aí fomos crescendo naquele mesmo ritmo, naquele dia a dia, sempre naquela mesma rotina, e um dia houve a necessidade de ele se afastar e vir para Salvador”, explica.

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Apesar da familiaridade com a arte de moldar o barro, os primeiros anos de dedicação ao trabalho foram forjados mais pela necessidade do que pela escolha. À época, Edinaldo era responsável pelo preparo da matéria-prima, o que exigia muito esforço físico em longas cargas horárias, mas não rendia bons ganhos financeiros.

“Tinha momentos de dar até um desânimo. E aí eu digo: ‘eu tenho que aprender a fazer esse trabalho para também ganhar o mesmo trabalho do oleiro’. Quando eles saíam para vir almoçar, em vez de eu subir, eu ficava”, conta.

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Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

“E aí, eu fui aprendendo devagarzinho, graças a Deus. E não tô querendo me exaltar, mas chegou ao ponto de nossa família, lá em Maragogipinho, pelo esforço — é porque eu digo, quando a gente quer, a gente faz e adquire —, se tornasse um dos melhores oleiros do Maragogipinho”, enfatiza Edinaldo.

A partir das técnicas aprendidas e algumas desenvolvidas por ele próprio, seu Edinaldo passou a ganhar notoriedade pelas peças de cerâmica que produzia. A fama na região, no entanto, não atraiu somente admiradores que desejavam colecionar seu trabalho.

“Tinha oleiros lá que vinham comprar peças na minha mão dizendo que era para presentear, porque eu trabalhava mais por criatividade, e essas peças eles compravam para copiar”, lamenta. Ele chegou a se recusar a vender as obras e alega que a desvalorização do seu trabalho, aliada às cópias frequentes, motivaram sua saída da região.

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Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

“Naquele tempo, você tinha mercadoria, mas não tinha quem comprasse, porque os carros não entravam naquele tempo”, explica o oleiro. Há registros da produção de cerâmica na região de Maragogipinho desde o século XVIII, e o artesanato é a principal atividade econômica local.

Anualmente, o distrito recebe o Festival da Cerâmica e a Feira de Caxixis. Somente em 2004, há pouco mais de 20 anos, a localidade foi reconhecida como maior polo de cerâmica da América Latina.

De pai para filha

Edinaldo passa boa parte do dia em sua oficina, onde desenvolve a maioria das suas peças. Moringas, vasos, jarros e esculturas baseadas em animais estão entre as obras que ocupam as prateleiras do espaço de cerca de 30 m², ao fundo da sua casa. Orgulhoso dos mais de 50 anos de experiência, ele enxerga cada peça não só como resultado do trabalho manual, mas uma forma de manter viva uma tradição.

Pai de quatro filhos, sendo três mulheres e um homem, apenas Edilnete Araújo, 36 anos, escolheu trilhar o mesmo caminho de Buiá. Entre a rotina como auxiliar administrativa, encontrou na arte a sua herança: molda o barro, dá cor às peças, restaura obras e, assim, dá novos contornos à prática. Algumas das suas criações dividem espaço com as do pai, expostas na oficina.

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“Coleção de Gordinhas”, produzidas por Nil Araújo, dividem espaço com obras de Buiá em sua oficina. Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

O gosto pelo ofício nasceu da convivência com Edinaldo, mas Edilnete reconhece que seguir na cerâmica exige resistência, diante de uma realidade marcada pela falta de reconhecimento. “Hoje a gente procura outro [trabalho], porque praticamente está, entre aspas, se findando o artesanato, eu acredito que não só da cerâmica, quanto os outros tipos de artesanato, porque existe essa desvalorização. Então a gente tem que procurar outros rumos, né, porque a vida hoje pede isso”, desabafa, após acompanhar a entrevista cedida por Edinaldo à reportagem, durante visita à oficina. Ela preferiu não gravar a conversa.

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Filha de Edinaldo, Nil Araújo acompanhou a entrevista com o pai e falou um pouco sobre a desvalorização da arte. Imagem: Isabella Mota/Destaque1

Para Nil Araújo, como também é conhecida, o sentimento vem do contraste entre a força histórica da arte milenar e o descaso contemporâneo. Conforme enfatiza, a cerâmica transcende a expressão estética e é um resgate das raízes utilitárias e ancestrais. Considerada uma das artes mais antigas do mundo, sendo a primeira obra reconhecida pela ciência criada há mais de 20 mil anos, a olaria teria nascido antes mesmo do surgimento da agricultura, apontam pesquisadores.

“É uma arte que envolve gerações, envolve religiões, ancestralidades, independente de religião, porque o indígena, por muito tempo, foi o meio de cozinhar, de beber água, através das moringas, potes, talhas. Na África também eles utilizavam isso, com o barro, né? Para fazer também, não só como artesanato, mas como utilidade própria mesmo, do lar”, conta Nil. Hoje, o artesanato e a criação de peças de cerâmica não são sua principal fonte de renda, mas ela é encorajada por Edinaldo a dar seguimento ao ofício.

Em meio à desvalorização, tradição resiste

Edinaldo é responsável por quase todas as etapas de produção, desde o preparo do barro até a queima das peças. Movido pela paixão, ele não cogita abandonar o ofício, mas não esconde a frustração diante da escassez de apoio e da desvalorização da arte. “Eu sou um artesão completo, sei vitrificar, sei lidar com torno elétrico, com forno elétrico, com pinturas, trabalho com código de pinturas desde esmaltar até a quente, mas estou parado, estou escondido sem poder, por falta de possibilidade”, explica.

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Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

“A gente aqui não tem um grupo formado de artesãos para se apegar, para ter um apoio, para ser auxiliado. Vamos supor, se está sem condições de comprar o material, ter um deles que se manifeste a abrir um empréstimo para a pessoa investir, para poder ter uma qualidade de trabalho melhor, como, no caso, eu estou precisando de máquinas”, lamenta o oleiro.

Cada peça em seu ateliê carrega histórias de esforço e superação, lembranças de um passado difícil e das batalhas que Edinaldo enfrentou para se manter na cerâmica e construir sua trajetória no ofício.

“Quantas vezes eu já entreguei mercadorias em valores mínimos para eu poder ter o dinheiro? Porque eu não ia morrer de fome! Então, chegou ao ponto de eu vir embora por aquele motivo sobre a questão das cópias, e ainda tinha esse lado aí”, conta, sobre o período em que viveu no Recôncavo.

Mais de 40 anos depois de deixar a região, ele celebra o reconhecimento internacional que o município recebeu, mas não considera retomar a vida profissional no interior. Agora, Edinaldo tem o objetivo de aprimorar o seu ateliê e deseja ministrar cursos para a comunidade.

Do caminho do barro à peça

São muitos os passos que transformam a argila, matéria-prima das obras, em artefatos decorativos ou utilitários. Concentrado e sentado próximo ao torno mecânico, Edinaldo explica que, para chegar ao ponto adequado para manipulação, é necessário fazer o processo de dosagem, que consiste no amassamento do barro, seguido da mistura de diferentes tipos desse material, para “reduzir a força” dele. Outras etapas, como a peneiragem, podem ser incluídas nas fases de preparo, com o objetivo de otimizar o barro.

“Se eu levar o dia todo fazendo peças, uma diferente da outra, ainda não dá, vai sair uma variedade de peças, uma diferente da outra. Nunca sai uma igual, a não ser que eu queira, né”, brinca.

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Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

A inspiração de Edinaldo vem muito do amor à arte, do seu dia a dia, e, às vezes, até dos sonhos. Além de uma atividade diária para complementar a sua renda, a olaria, para o aposentado, é uma terapia. “Quando eu acordo de manhã, eu já acordo com a mão na massa, e venho logo aqui olhar o que eu fiz ontem, se ficou adequado. Às vezes sonho de noite. Até isso no sonho!”, diz.

Para preservar as peças, elas secam, de preferência, em lugares à sombra. “Nada melhor do que ela [a peça] agora do tempo, no vento, ela enxugar assim, porque ela não vai sofrer e um lado secar mais do que o outro”, explica.

“A peça só fica sadia quando não é levada ao sol, porque nada forçado presta”. 

Após o processo de secagem e antes da queima no forno, existe também o processo de “brunir”. A prática ancestral, cujo ofício normalmente era atribuído às mulheres, é uma forma de alisamento e polimento da superfície da cerâmica crua, que utiliza pedras de riacho para deixar um acabamento brilhante na peça, mesmo sem o uso de esmaltes.

Dom que vai além do berço 

Mais do que meio século de dedicação, Edinaldo vê na cerâmica um dom e uma extensão de si mesmo. O barro, em suas mãos, deixa de ser apenas matéria e se torna memória.

Homem de fé, Buiá costuma associar seu ofício às origens da própria humanidade. Durante a entrevista, lembrou de uma conversa que teve com um pastor para explicar sua visão: “Quem é Deus? É o grande oleiro, compreendeu? Ele fez o homem de barro, moldou a imagem e deu o fôlego de vida. Então, foi a primeira profissão do mundo”.

Do barro à tradição: há mais de 40 anos, Edinaldo Araújo mantém viva a cerâmica em Camaçari
Foto: Rodrigo Junior/Destaque1

Entre risos, ele diz que sua ligação com a argila vai muito além da vida terrena. “Eu não desprezo esse trabalho por nada na vida, só quando eu morrer, mas mesmo assim eu não vou desprezar, porque eu vou pra debaixo dele mesmo, do barro, aí não tem jeito, vou pra debaixo dele. E lá eu posso fazer uns artesanatos”, brinca.

Assista à entrevista: 

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