Quando se trata da política brasileira, não podemos reclamar da falta de novidades. A cada ciclo eleitoral, surge um personagem disposto a ocupar o lugar do “novo”, do “diferente”, daquele que supostamente estaria acima da velha política e das disputas ideológicas que atravessam o país. A novidade da vez atende pelo nome de Augusto Cury. Médico, psiquiatra, escritor e professor, Cury decidiu transformar a autoridade construída ao longo de sua carreira na literatura, na psiquiatria e nas palestras em capital político. Em 2026, lançou-se candidato à Presidência da República pelo Avante e, para surpresa de muitos, passou a aparecer com destaque nas pesquisas eleitorais.
O fenômeno merece ser observado com atenção não necessariamente pelo tamanho de sua candidatura, mas pelo tipo de desejo que ela revela. Em meio à exaustão provocada pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, Cury apresenta-se como a terceira via, o pacificador, aquele que chegaria à política munido de equilíbrio, inteligência emocional e capacidade de “diagnosticar” os problemas nacionais. A metáfora, obviamente, é sedutora: se a sociedade está doente, nada mais conveniente do que oferecer um médico como aquele que poderia curá-la.
Mas política não é consultório. E o Brasil não é um paciente individual! Governar um país exige muito mais do que capacidade de comunicação, conhecimento sobre comportamento humano ou habilidade para produzir frases capazes de viralizar. Exige compreensão econômica, domínio das instituições, capacidade de articulação com o Congresso, negociação federativa, construção de maioria política, conhecimento da máquina pública e, sobretudo, clareza sobre quais interesses serão enfrentados e quais serão contemplados.
É justamente nesse ponto que o encantamento com Cury merece ser questionado. Não se trata de negar seus méritos profissionais ou intelectuais. Tampouco de afirmar que alguém que nunca ocupou um cargo eletivo seja, por definição, incapaz de exercer a Presidência. A questão é outra: qual é o projeto político apresentado por Cury e quais são as condições concretas para executá-lo?
Sua ascensão nas pesquisas é ainda mais curiosa porque acontece diante de nomes que possuem décadas de experiência na política institucional, como Ciro Gomes e Marina Silva, ambos candidatos à Presidência em eleições anteriores. Cury, sem trajetória política comparável, consegue ocupar parte do espaço deixado pelo eleitorado cansado da polarização. E talvez seja justamente aí que esteja o problema.
O Brasil possui uma longa tradição de procurar salvadores. Desde a construção de mitos em torno de figuras políticas até a transformação de determinados personagens em símbolos nacionais, nossa história é marcada pela expectativa de que um indivíduo possa encarnar a solução para problemas que são, na realidade, estruturais. A cada crise, procuramos alguém. Um pai da nação. Um mito. Um herói. Um outsider. Alguém que supostamente não esteja contaminado pela política tradicional.
Foi assim que a extrema direita também construiu parte de sua narrativa. Jair Bolsonaro foi apresentado durante anos como o homem que enfrentaria “tudo isso que está aí”, como se a complexidade do Estado brasileiro pudesse ser resolvida pela vontade individual de um homem forte. Sabemos o resultado. Por isso, é preciso ter cuidado quando o discurso da novidade reaparece embalado em linguagem terapêutica, inteligência emocional e promessas de superação. Não precisamos de um presidente que nos trate como pacientes. Precisamos de um governo capaz de tratar problemas concretos.
O próprio plano de governo apresentado pelo Avante ajuda a entender essa diferença. Embora extenso, com aproximadamente 200 páginas e 18 projetos, ele frequentemente parece reproduzir a lógica dos livros de Cury: diagnósticos amplos, linguagem motivacional, soluções grandiosas e uma aposta significativa na tecnologia e na transformação individual. O problema é que um país não se governa como uma palestra.
Quando o assunto é fome, por exemplo, aparece a proposta de criação de um fundo global para alimentar a humanidade, com a destinação de 0,5% do comércio global e 2% da indústria mundial de armamentos para um fundo internacional de erradicação da fome. A ideia pode soar humanitária e até inspiradora. Mas a pergunta que um candidato à Presidência precisa responder é outra: como isso será politicamente construído, juridicamente viabilizado e economicamente executado?
Porque o presidente brasileiro não governa o comércio mundial, não controla a indústria internacional de armamentos e não pode simplesmente transformar uma proposta global em política pública nacional por força de vontade. Essa diferença parece pequena quando estamos diante de uma palestra. Na Presidência da República, ela é gigantesca.
É preciso distinguir uma ideia interessante de uma política pública viável. É preciso distinguir uma frase bonita de uma proposta executável. É preciso distinguir influência social de capacidade política. E, sobretudo, é preciso compreender que inteligência emocional não substitui política econômica.
O Brasil é um país atravessado por desigualdades históricas, concentração de renda, racismo estrutural, desigualdade regional, precarização do trabalho, déficit habitacional, problemas de saúde pública, violência, crise ambiental e enormes disputas de interesses econômicos. Não basta diagnosticar a sociedade como “doente”. É necessário dizer quem paga a conta da cura.
E aqui está uma das grandes fragilidades do fenômeno Cury: a transformação de problemas coletivos em questões que parecem poder ser solucionadas por mudanças individuais, comportamentais ou tecnológicas. Essa lógica é extremamente confortável para determinados setores da sociedade porque desloca o conflito.
Se o problema é emocional, basta desenvolver inteligência emocional; se o problema é falta de oportunidade, basta desenvolver competências; se o problema é pobreza, basta criar mecanismos inovadores; se o problema é educação, basta utilizar tecnologia. Mas a política começa justamente quando perguntamos:
Quem possui poder, quem concentra riqueza, quem decide e quem se beneficia da estrutura existente?
A política real é conflito, orçamento, Congresso, negociação, pressão social. É disputa de interesses, construção de maioria. É enfrentar grupos econômicos, setores organizados e interesses que não desaparecem porque um presidente fala de inteligência emocional. Não existe salvador da pátria e talvez essa seja uma das lições que mais precisamos reaprender.
A esquerda, inclusive, deveria ter especial cuidado com esse encantamento. O desejo legítimo de superar a polarização não pode transformar qualquer personagem que se apresente como moderado em uma alternativa automaticamente progressista. Ser de centro-esquerda, utilizar uma linguagem humanista ou falar em paz não significa, por si só, apresentar um projeto capaz de enfrentar as estruturas que produzem desigualdade.
E o eleitor progressista não deveria trocar a análise de projeto pela sensação de alívio provocada por alguém que parece menos agressivo do que os extremos. É por isso que 2026 exige mais do que simpatia, exige estratégia.
Em uma eleição na qual a extrema direita continuará disputando espaço e tentando reorganizar sua força política, o voto progressista não pode ser guiado apenas pelo encantamento com uma novidade eleitoral. É preciso perguntar quem tem projeto, quem tem condições reais de governar e, principalmente, qual candidatura contribui para impedir que o bolsonarismo e seus herdeiros políticos retomem o controle do
Estado brasileiro.
Cury não é a cura. E talvez a maior maturidade política que possamos demonstrar em 2026 seja justamente abandonar a procura por quem venha nos salvar e assumir a responsabilidade de escolher, conscientemente, o projeto de país que queremos defender. Como advertiu Bertolt Brecht, “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Em uma eleição tão decisiva, não podemos nos dar ao luxo de votar apenas em quem nos encanta. Precisamos votar em quem representa o projeto de sociedade que queremos construir e, diante do risco concreto de a extrema direita voltar a ocupar o poder, compreender que estratégia eleitoral também é uma forma de responsabilidade democrática.

Laiana França é mercadóloga, pós-graduanda em Gestão Empresarial e estudante de Direito, além de feminista e militante dos direitos humanos.
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