Setembro é o mês de celebrar a “cidade industrial”, mas também a cidade de múltiplos talentos culturais e no esporte, a exemplo da história de Sofhia Silva Xavier, primeira atleta camaçariense a ingressar na Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica Juvenil. Nesta quinta-feira (12), o lado social de Camaçari entra em cena. Fomentado por inúmeras instituições no município, o segmento será representado pela Associação Paulo Tonucci (Apito), que nasceu do sonho de um sacerdote italiano, mas brasileiro e camaçariense de coração e atuação.

Paulo Maria Tonucci chegou ao município no ano de 1981, onde residiu até 1994, quando faleceu vítima de um câncer. O religioso não viu a materialização do desejo de fundar uma escola, mas plantou as sementes, que foi regada por amigos e alguns munícipes. A árvore cresceu e segue dando frutos há mais de 25 anos.
Ao Destaque1, a coordenadora-geral da Apito, Liliane Cavalcante, conta que a instituição, de cunho comunitário, atende crianças de 3 a 5 anos de idade, gratuitamente. A escola infantil foi fundada em 1998. No entanto, em meio as demandas de articulação com novos projetos e desenvolvimento da sustentabilidade, surgiu a necessidade de registro do equipamento como ‘Associação’ em 1999.

“A associação Paulo Tonucci veio depois da escola, porque já existia, só que funcionava de forma informal, não podia ter contratos, projetos com empresas privadas, porque não existia uma documentação”, explica Cavalcante.
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A história da Apito, que conta com a matriz no Alto da Cruz e filial na Rua dos Noivos, Bairro dos 46, é marcada pelo trabalho de uma equipe de apoiadores e voluntários. “Na época que Padre Paulo já não existia, pessoas se uniram para transformar o sonho em realidade. Vó Lila, Delia, Ana, Helena, Nonô, Cícero, Diácono Raimundo, Adriana Marques, Cely Maria, Nilzete e muitos outros amigos foram pessoas que sabiam desse sonho de padre Paulo e abraçaram a causa na busca de homenagear essa figura tão importante no social da nossa cidade”, lembra.
Maria das Dores, citada na lista acima com o apelido de “Vó Lila”, está na trajetória do equipamento desde a fundação. Aos 74 anos, ela atualmente exerce a função de voluntária e projeta a importância do equipamento no âmbito familiar.

“Eu vim para a Apito como funcionária. Hoje, eu sou uma voluntária. Quantas famílias existem em Apito? Que dependeu de Apito? Vieram pequenos e hoje são pessoas que são até funcionários. Eu digo que ela não é ‘Biotônico’, mas é um fortificante para certas e muitas famílias”, enaltece.
O jovem Jackson Souza exemplifica a fala de Vó Lila. Ele, que foi aluno, agora exerce a função de assistente administrativo.

“Minha história na Apito é bem antiga. Eu entrei em 2003, como aluno. Depois retornei como adolescente, em um dos projetos que marcou minha vida. Em 2015, um novo retorno, dessa vez como voluntário, na sala de aula, junto com as professoras. Em 2017, tive a oportunidade de estagiar na área administrativa, depois continuei novamente por um tempo como voluntário, e hoje sou CLT, trabalho na área de RH”, relembra.
Atuação
Conforme a coordenadora-geral, a associação exerce um trabalho que vai além do universo infantil. De forma informal, são ofertadas à comunidade distintas atividades, abrangendo jovens e adultos de diversas localidades do município. “Em meio a esse trabalho com as crianças, também fazemos um trabalho mais informal com os jovens, por meio da oferta de cursos de percussão, inglês, italiano para adultos, jogos interativos. Vamos iniciar com força o projeto de robótica, dança, teatro”, enumera Liliane.

Entretanto, a camaçariense também destaca algumas dificuldades. Ao longo de 2023, em meio a uma crise, a instituição quase fechou as portas. Diante dessa realidade, o atendimento, que era integral, passou a ser apenas em meio período.
“Esse ano, por questões financeiras, tivemos que fazer um novo planejamento. Ano passado, percebemos que não daria para manter as atividades em período integral. Caso contrário, teríamos que fechar. Economicamente, a gente teve que repensar e vir para o parcial, visando manter os empregos e as atividade em funcionamento. A gente sabe que não é o ideal. O ideal para os pais, para as crianças, é o integral. Mas vivemos de doações. Se ela não chega, a gente não tem como dar seguimento”, revela.

Prestando atendimento para 147 crianças, a Apito conta com 14 funcionários fixos, bem como um grupo de prestadores de serviços (MEI), além de voluntários e a diretoria que incide nos trabalhos. “Os contratos são da Escola Infantil Apito, em virtude do convênio com a Prefeitura. Para os projetos não formais, a gente geralmente contrata prestadores de serviço, em um período flexível”, conta.
Parcerias
Para a manutenção dos serviços informais, Liliane salienta algumas parcerias, em períodos específicos, com empresas como a Deten Química, Braskem, O Boticário e Sodecia, entre outras. O Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e Adolescentes (CMDCA) também faz parte desse time.
“Mesmo assim ainda não dá para manter de forma fixa essa oferta de cursos e oficinas. Mas a gente segue tentando fazer o máximo de parcerias possíveis para dar continuidade sempre que possível. Antes, a gente já teve tudo isso em tempos maiores, mas por questões financeiras não estamos conseguindo ainda manter essa assiduidade”, disse.

Já em relação à escola, a coordenadora frisa que existe um contrato com a Prefeitura, mas que não torna a associação pública. “A gente tem um contrato de prestação de serviço com a Prefeitura. A gente não é pública e nem privada. Somos uma instituição de cunho comunitário. Nós sobrevivemos e vivemos de doações. Então, quando não tem doações, essas ações se dificultam”, explica.
A Itália também é uma financiadora importante para o desenvolvimento dos projetos existentes em Camaçari e no Brasil. Esses donativos são oriundos, em maior parte, de familiares e amigos do Padre Paulo, bem como de Delia Boninsegna, também italiana e amiga do sacerdote. Hoje, ela atua como presidenta da Diretoria de Conselho Fiscal da Apito.

“Contamos com uma ajuda do Conexão Vida, programa italiano oriundo do ‘Progetto Ágata Smeralda’. A gente se inscreveu há cerca de 30 anos, antes mesmo da criação da instituição. Essa associação em Florença começou também a partir do Padre Paulo e sacerdotes da Itália”, especifica.
No que diz respeito à Igreja Católica, Liliane esclarece que, presentemente, a relação é social, sem vínculos financeiros com a Diocese de Camaçari.
“Foi uma parceria muito grande com a Diocese, anos atrás. Ela acontecia por meio da Associação Beneficente São Thomaz de Cantuária (ABSTC). Naquela época, algumas pessoas à frente da Apito também atuavam lá”, salienta.
Cavalcante também menciona a atual diversidade de religiões presentes no equipamento educacional. “Fazíamos muitas atividades com a Igreja Católica, a questão da catequese, da participação nas missas. Depois, Camaçari, assim como a Associação, foi mudando sua história. Ela já tem uma diversidade grande de pessoas, de religiões. Essa parceria com a Igreja hoje é muito livre, e tentamos manter sempre o vínculo enquanto Associação. Por exemplo, quando a gente faz um evento na Cúria Diocesana São João Paulo II, a gente chama a Diocese para fazer juntos. Também contamos com um trabalho de escuta com Dom Dirceu. Porém, a relação não é financeira e nem religiosa, mas sim de convívio social”, esclarece.

Liliane também reforça que os munícipes interessados em ajudar podem abraçar os projetos fomentados na associação participando da Campanha Nota Premiada Bahia (NPB), iniciativa do Governo do Estado, através da Secretaria da Fazenda, que incentiva o cidadão a desenvolver o exercício da cidadania fiscal, ajudando inúmeras instituições que são escolhidas conforme critérios do participante.
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Crianças, adolescentes e jovens como protagonistas
“Diante da escuta sensível que a Educação precisa ter com essas crianças, o desejo é fazer com que elas se tornem um adulto pensante, um adulto que busque seus direitos, um adulto que saiba expor seus ideais dentro de uma sociedade”. A fala é da pedagoga Dina Rosa, que atua como gestora escolar da Apito desde 2017.

Ainda de acordo com a educadora, o trabalho realizado na escola oportuniza a “vivência das crianças”, dando vez e voz, e, por meio das atividades, tornando os pequenos protagonistas de cada fase.
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No local, a sustentabilidade, bem como o meio ambiente, são amplamente integrados a rotina de formações. A unidade conta com uma horta, e, por lá, os meninos e meninas fazem colheita de frutos como tomate e hortaliças, a exemplo do coentro, com o intuito de estimular a consciência socioambiental, atitude que requer responsabilidade na atuação do ser humano sobre a natureza.
Nesse cenário, Liliane Cavalcante reforça o compromisso com a cidadania. “Temos vários projetos para acolher crianças, jovens, adultos. Mas não só projetos, mas também formação cidadã. Essa é uma das nossas pautas, sobre direitos humanos, a melhoria de uma cidade, de um espaço, de lugares que sejam voltados para as pessoas desfrutarem de cultura, educação, lazer, é isso que a gente deseja não só para a Apito, mas para todas as associações que pensam em espaços como esse. A nossa associação é ativista em prol de qualidade de vida para todos”, completa.
*A matéria faz parte da série de reportagens que estão sendo publicadas ao longo do mês, todas às quintas-feiras, e visam homenagear Camaçari por meio da sua pluralidade de artistas e atletas, bem como pelo fomento ao desenvolvimento social.*
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