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Alternativas econômicas para a cidade de todos nós, por Tagner Cerqueira

Camaçari não é um tabuleiro de xadrez.

Tagner Cerqueira

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Foto: Reprodução

Jogo de xadrez é considerado esporte, arte e ciência. É admirada a estratégia e capacidade do jogador de se antecipar às jogadas futuras. Tudo isso poderia ser utilizado para governar nossa cidade; porém, a única jogada que vemos é a morte de peões para proteger a majestade.

Essa analogia faz todo o sentido na conjuntura em que a cidade está imersa, após o trágico anúncio do fechamento de uma empresa. Além dos peões, caem as torres.

Analisando a história recente e os rumos do nosso município, percebemos que a população local é sistematicamente retirada dos espaços de decisão pelas mãos que movem as peças, mas que não pisam no tabuleiro: da implantação do Polo Petroquímico até o seu avanço para se tornar um Polo Industrial, as decisões partem sempre da manipulação das peças mais frágeis; estas se submetem à “bondosa e fraterna” vontade dos reis que, em sua benevolência, deixam que algumas migalhas caiam da mesa para manter os peões quietos.

É importante salientar que o presente texto não se trata de uma declaração de ódio ao Polo Industrial, longe disso. A nossa indústria foi, e ainda é, o nosso principal vetor de desenvolvimento econômico, uma fonte de orgulho e referências positivas. No entanto, a sua extrema dependência nos coloca em uma posição completamente vulnerável diante das vontades de empresas e dirigentes que controlam o setor.

O momento é de busca de saídas alternativas. Estratégia. Camaçari precisa se voltar para o seu povo e buscar nele a diversificação da matriz econômica como forma de superação da crise posta. Só assim deixaremos de ser uma cidade rica com um povo pobre.

As características naturais do município já apontam vocações econômicas. Três vetores precisam de investimento e atenção redobrada: o turismo, a cultura e o comércio. O primeiro e o segundo devem ser tratados de uma forma profundamente interdependente. Não faz sentido ter 42 quilômetros das mais belas praias do Brasil, manifestações culturais riquíssimas, produção local de alimentos orgânicos em agroflorestas, histórico de pontos turísticos ligados a movimentos culturais que mudaram a dinâmica do mundo, e não sermos mundialmente reconhecidos por isso.

A construção desse caminho de reconhecimento do turismo e da cultura depende de iniciativas que podem ser viabilizadas através de parcerias público-privadas em dois eixos: estruturação e divulgação.

No eixo estruturação, como explica o próprio nome, é necessário que se crie uma estrutura na Orla que permita a sensação real de destino turístico, e não a saturada “condominialização” das nossas praias. É urgente que se pense em um bairro planejado, que se comporte como cidade turística, oferecendo livre acesso à praia por meio de uma avenida beira-mar planejada e segura, com farta oferta de ambientes instagramáveis, hotéis, restaurantes, bares, casas noturnas e agências de turismo.

O eixo divulgação deverá fugir dos clichês batidos de manuais velhos de publicidade turística, com panfletos e banners em aeroportos. Na era da validação, só o marketing digital, através de influencers reais com projeção nacional e internacional, conseguirá trazer os holofotes de desejo pelos nossos destinos.

O terceiro vetor que as nossas características naturais nos propiciam é o comércio, sendo este fundamental para a distribuição de riquezas e diminuição das desigualdades; nesse campo, são necessárias ramificações em teia para que haja crescimento. A capacitação para o e-commerce, com a criação de hubs de negócios e estruturas públicas que propiciem a produção de conteúdo digital, e nossa proximidade com a capital viabilizarão o escoamento dos produtos que saem daqui.

Para além do virtual, modernizações podem ser feitas para estruturar locais com características intensas de geração de negócios. Um exemplo básico disso seria uma modernização da rua principal onde ficam os bares do Inocoop: a instalação de pisos intertravados, iluminação mais intensa, com fiação subterrânea, e fechamento sistemático em dias e horários específicos para práticas esportivas e atividades culturais podem gerar um clima seguro e atrativo para a circulação de pessoas e, consequentemente, de dinheiro.

Por fim, embora mais complexo, perfeitamente realizável, há o estímulo à criação de um polo tecnológico, uma espécie de Vale do Silício para o Brasil. O legado trazido pelo Polo Industrial nos ajuda a pensar ainda mais longe. O intenso estímulo local ao estabelecimento de startups na nossa cidade tem o potencial de gerar um efeito em cadeia que nos coloque novamente no centro dos debates internacionais de desenvolvimento econômico.

Nessa senda, a saída da Ford poderia nos estimular a buscar por indústrias automobilísticas mais conectadas com o futuro do que com o passado. A produção de carros híbridos ou elétricos, por exemplo, vive momentos de glória, e a própria Tesla se define como uma cadeia de startups.

Enfim, essa série de ideias, com possíveis vetores e eixos para o desenvolvimento econômico, só ressalta uma perspectiva brilhante de futuro para Camaçari, indo muito além de “tapar buracos”, como sugeriu o prefeito em entrevista recente a BBC News.

O tabuleiro está posto, mas infelizmente o jogo perdeu a sua beleza quando as peças foram tidas como arranjos sustentadores da exploração. Para esse mal, a única alternativa é preparar a cavalaria e virar a mesa. Somos mais que peças, e Camaçari deve sair das mãos de reis, rainhas e bispos para ser a cidade de todos nós.

Tagner Cerqueira é bacharel em Direito e vereador de Camaçari.

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