Aliança profética, por Edvaldo Jr.

Esse é o segundo dos quatro artigos que escreverei com base no Livro de Ziblast e Levtsky: como as democracias morrem.

“A abdicação da responsabilidade política por parte de seus líderes marca o primeiro passo de uma nação rumo ao autoritarismo”.

Na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, na Venezuela de Chávez e no Brasil de Bolsonaro, em ambos os casos a elite política tradicional duvidou da possibilidade de vitória dos chamados “outsiders”, ou seja, populistas que manipulam a dinâmica democrática da política em nome dos seus próprios interesses, quando não se aliou as suas pautas políticas, na ideia de tentar recuperar a credibilidade perdida ao longo do tempo.

Não diferente da Itália, a Alemanha do início do século XX, passava por dificuldades econômicas, as barreiras impostas aos países pelas nações vitoriosas na primeira grande guerra criou um sentimento de revanchismo, além de produzir o empobrecimento da população local, fator que contribuiu para o descrédito na política tradicional desses países, o que fez abrir espaços para ideias que tinham como objetivo romper com as estruturas estabelecidas, pois elas já não mais conseguiam responder aos desejos e sonhos dos populares, e foi adentrando esse sentimento de desilusão e frustração, e com a ajuda da elite política tradicional que homens com Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha e Mussolini na Itália.

Na segunda metade do século passado, a Venezuela se orgulhava de ser vista como uma democracia modelo, principalmente em uma região infestada por golpe de estado e ditaduras. Mas, no ano de 1980, o país que tinha o petróleo como principal elemento econômico se aprofundou em uma prolongada depressão, crise que durou mais de 10 anos, o que fez quase dobrar a taxa de pobreza do país. Esse ambiente começou a gerar insatisfação por parte dos venezuelanos e o aumento do descrédito nos partidos tradicionais. Em 1992, um grupo de oficiais de baixa patente se rebelou contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Liderados por Hugo Chávez os rebeldes se denominavam “bolivarianos” em homenagem a Simón Bolívar, herói da independência. Na eminência de um segundo golpe fracassado, Chávez então resolve buscar o poder por via eleitoral.

O ex-presidente Caldera era um político experiente, um estadista bem conceituado, ressentido por não ter conseguido assegurar seu nome para eleição presidencial em seu partido, que via no homem de 76 anos uma relíquia política. Mas, o então senador sonhava em ser presidente novamente e o surgimento de Chávez dava para ele uma nova chance.

Disse então Caldera: “é difícil pedir ao povo para se sacrificar em nome da liberdade e da democracia quando eles pensam que essa liberdade e essa democracia são incapazes de lhe dar alimento para comer, de conter a alta astronômica do custo de vida ou de acabar definitivamente com a corrupção, que, aos olhos de todo o mundo, está corroendo as instituições da Venezuela a cada dia que passa”. Na busca de tentar retornar ao poder o ex-presidente adotou o discurso do “bolivarianismo” e inocentou Chávez que se encontrava preso pelos atentados ao presidente do seu país. Logo após a soltura lhe perguntaram onde estava indo: “para o poder”, respondeu ele.

Guardada as devidas proporções, Hitler, Mussolini e Chávez percorreram caminhos que compartilham semelhança espantosa para chegar ao poder, não apenas todos eles eram outsiders, como tinham um ligeiro talento em prender a atenção do público, mas, cada um deles ascendeu ao poder porque políticos do establishment negligenciaram os sinais de alerta e, ou bem lhes entregaram o poder (Hitler e Mussolini), ou então lhes abriram a porta (Chávez).

Edvaldo Jr., historiador, pós-graduando em Direito Público Municipal, professor e palestrante.

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