2019 ainda tem salvação

Se na política e na sociedade vivemos um caos dentro e fora do Brasil, felizmente não podemos dizer o mesmo da música. O verdadeiro messias da humanidade, a música continua salvando vidas e agora salvando nossa sanidade também.

O lance é que desde janeiro a gente vem sendo bombardeado de lançamentos incríveis de artistas nacionais e internacionais – seja no rap, no rock, no indie, na psicodelia, na mpb, no ‘jazz brasil style’, entre outros.

E se você tá voando na cena, literalmente, eu vou te mostrar algumas das melhores coisas que 2019, enfim, nos presenteou.

Para facilitar, vou deixar uma playlist do Spotify com os sons citados no final do texto pra você já ir se familiarizando.

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Aqui nas terras tupiniquins neo colonizadas pelo Tio Trump, abrimos com o álbum mais necessário para o momento que estamos vivendo. O menino que se tornou deus, Gustavo Pereira a.k.a Djonga, soltou o maravilhoso ‘Ladrão’ em março, um disco que dificilmente será batido, ao menos no rap nacional, como álbum do ano.

As linhas estão absurdamente afiadas apontadas para a parcela mais suja da nossa sociedade. Racistas, machistas, misóginos e fascistas estão ainda mais no alvo do mineiro que chega aos 25 anos na melhor fase da sua carreira e (aí só o tempo irá dizer) no auge da sua criatividade artística.

Se você ouvir “Hat-Trick”, “Bené” e “Voz”, por exemplo, você entenderá o que estou dizendo.

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Beirando a maestria há alguns discos, O Terno trouxe um dos trabalhos mais espetaculares de uma jovem banda brasileira nos últimos anos.

A banda da capital paulista fez do seu quarto álbum uma obra-prima e a nomeou de ‘<atrás/além>’, com canções mais doces e cheias de referências – principalmente ao álbum solo do seu vocalista Tim Bernardes -, mas acima de tudo, propriedade e identidade que parece ter sido definido (ou não) neste disco.

Uma coisa é certa: o rock parece ter morrido para a banda. O que não é de se lamentar não. Pelo contrário, isso só os possibilita a irem além dos próprios limites. E quem ganha somos nós.

Pare e ouça “Pegando Leve”, “Tudo Que Eu Não Fiz” e “Bielzinho / Bielzinho” para entender o tamanho que o trio tomou. Pra mim, uma das coisas mais geniais da música brasileira atualmente.

É outro favoritaço a álbum do ano.

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Parceiros d’O Terno e uma das grandes revelações independente desta década, Boogarins tem, assim como seu brothers paulistas, se reinventado disco após disco e este ‘Sombrou Dúvida’ mostra que a criatividade psicodélica anda super aflorada pelos lados de Goiânia.

Pitadas de questionamentos e doses de mistério foram colocados por eles nas faixas que compõem o disco, levando muitos fãs a tentar desvendar versos que parece não fazer muito sentido, mas que visto sob outra ótica, parecem ter ligações e filosofias de vida comum muito implícitas.

Já é o melhor trabalho deles.

Por isso, não deixe de escutar “Desandar”, “Dislexia ou Transe” e “Sombra ou Dúvida” – essa última principalmente, hein?!

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Mas o lançamento que mais me chamou atenção este ano por essas terras foi o ‘Besta Fera’ do clássico Jards Macalé, que traz em seu discurso um retrato de si e do tempo em que está inserido, seja no passado, onde sua voz era muito mais ecoada Brasil afora, seja no temeroso presente que vivemos quase sendo calados diariamente.

Pega o fone e escute “Vampiro de Copacabana”, “Pacto de Sangue” e “Buraco da Consolação”.

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Outro que faz uma ótima reflexão sobre si no passado e presente é o grande Black Alien. Comemorando a sobriedade e toda a problemática desse tempo em que lutou para abandonar o alto consumo de drogas, o rapper carioca soltou o verbo no excelente ‘Abaixo de Zero: Hello Hell’.

O único defeito deste disco é que ele é curto – 29 minutinhos apenas distribuídos em 9 faixas. É daqueles álbuns que você não consegue pular uma música sequer. É do começo ao fim sendo puxado pelos beats deliciosos que Black Alien escolheu pra deitar com suas rimas certeiras.

Muito difícil escolher apenas três sons, por isso recomendo que ouça todo. Mas, se tiver com preguiça, então coloca “Vai Baby”, “Que Nem o Meu Cachorro” e “Take Ten” pra tocar e se envolver com a história de mais um grande Gustavo da cena hip-hop nacional.

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Só de pensar esse disco arrepia minha alma. O trabalho novo de Liniker e os Caramelows é tão bonito que eu não consigo expressar em palavras o que é aquilo. Só por ‘Goela Abaixo’ ter uma das músicas mais bonitas que eu já escutei nos últimos tempos já vale.

Escute “Calmô” e entenda o que digo, além, é claro, de faixas como “Bem Bom” e “Boca” que resumem bem a lindeza deste disco que eu conheço há pouco tempo e já considero pacas.

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Lógico que esta coluna não vai esquecer do excelente ‘O Futuro Não Demora’ da BaianaSystem, né? A banda baiana mais poderosa do momento trouxe um disco que, com certeza, divide opiniões entre os dois tipos de fãs que a banda possui: os do furdunço e os da “balbúrdia”.

Longe de ser um disco dançante como o ‘Duas Cidades’, este trabalho traz uma reflexão de uma Salvador vista de fora, mais precisamente da Ilha de Itaparica, onde a banda gravou o disco, de acordo com os próprios caras.

É um disco para se refletir mais do que dançar. Canções como “Água”, “Salve” e “Bola de Cristal” podem até fazer você mexer um pouco o esqueleto, mas pare só um pouquinho pra prestar atenção no que Russo e a banda tem a falar e deleite-se com o cuidado nas melodias, que contou até com participações da Orquestra Afrosinfônica.

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Falando um pouco de música intershallownow, chegamos até os Estados Unidos. Que a gringa, principalmente os States, é um celeiro de artistas incríveis – nada comparado a Paula Fernandes e Luan Santana, lógico – ninguém duvida.

Brincadeiras à parte, para encerrar essa lista seletíssima, eu não poderia deixar de citar o incrível ‘IGOR’, o novíssimo e mais surpreendente álbum de Tyler, The Creator.

Sua estética é maravilhosa, desde a concepção visual até os timbres que encorpam as melodias desenhadas perfeitamente para os versos tristes e potentes do cara, recheadas de refrões marcantes e coros femininos lindíssimos.

Eu não consigo parar de escutar.

Tyler é um dos melhores no que faz, tanto que mantém há anos a média de trabalhos foda sendo lançados. Este não deixa a desejar em nada. De verdade. É muito mais que um álbum de hip-hop. E você só vai perceber se ouvir o álbum, principalmente as faixas “EARFQUAKE”, “New Magic Wand” e “Are We Still Friends”.

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Agora pode dá o play. Todos os sons citados estão aqui:

Claro que ainda há muita coisa sendo lançada além desses lindos álbuns. Bom lembrar também que estes são discos lançados até o presente momento. O que será que o decorrer do ano nos reserva? Saberemos em breve.

Se eu pudesse apostar, diria pra vocês prestarem atenção na Tássia Reis, no Diomedes Chinaski e no Don L que podem lançar grandes trabalhos ainda este ano, completando este hall de grandes lançamentos em um ano que todo mundo gostaria de esquecer.

Enquanto isso, ouçam música. Isso é uma das únicas coisas que ainda nos traz paz em 2019.

Beijo no coração.

Faustino Menezes, músico, produtor e ativista cultural. Escreve as sextas a cada duas semanas. 

jornalismo@destaque1.com

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