“Essa é a minha luta e eu vou lutar em todas as esferas. Eu vou lutar por elas”, revela Eva Luana sobre recomeço e ativismo feminino

“Amuralhar o próprio sofrimento é arriscar que ele te devore desde dentro”, parafraseando e tendo como inspiração Frida Kahlo, artista plástica mexicana, e encarando os seus piores medos em busca de justiça que Eva Luana, 21 anos, inspira centenas de mulheres por todos os cantos.

Foi no dia 31 de janeiro de 2019 que um passo maior, impulsionado por um desejo de se libertar dos sofrimentos, trouxe à tona a história da jovem que sofreu abusos físicos e psicológicos do padrasto durante oito anos. Thiago Alves Oliveira está preso preventivamente no Complexo Penitenciário de Salvador, na Mata Escura, desde fevereiro.

Além da denúncia feita na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) em Camaçari, Eva contou a sua história em relatos no perfil do Instagram. Por lá conquistou 1 milhão de seguidores, apoio, admiradores e visibilidade. O caso ganhou grande proporção, atingindo inclusive à França, tornando Eva Luana um símbolo de luta nas ações de violência contra a mulher.

É lutando como uma garota, que a jovem, nascida em Belo Jardim (PE) e residente em Camaçari desde os oito anos de idade, amante de praia e estudante de direito, pretende continuar incentivando e ajudando outras meninas e mulheres que passaram ou estão passando por situações semelhantes à sua.

O seu nome batiza o Fundo de Enfrentamento à Violência Contra Mulheres, proposta de autoria da deputada estadual Fabíola Mansur (PSB) e que ainda depende da sanção do governador Rui Costa (PT). Como futura advogada a ideia é defender que os crimes enquadrados na Lei Maria da Penha se tornem inafiançáveis.

Nesta entrevista exclusiva ao Destaque1, Eva Luana falou sobre recomeço, sonhos, transformações, planos, liberdade, ativismo, combate à violência e inspirações. “O meu medo foi suprido pela minha força”, declara. “Eu estou em metamorfose […] Eu não sei explicar quem é a nova Eva, mas eu digo que é lutadora, guerreira e que está apta a ouvir pessoas, amar pessoas e cuidar de pessoas como eu nunca tive”, completa.

Destaque1 – Ao contar a sua história e denunciar todos os abusos sofridos ao longo de oito anos, você afirmou que a intenção também era incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo e diante disso se tornou um símbolo de luta feminina. O que acha que mudou para as mulheres que te acompanham, que tomaram conhecimento da sua história e como pretende dar continuidade a essa luta?

Eva Luana – Então, o que mudou foi elas perceberem que não são só elas que passam por isso. Porque eu mesma achava que só eu que passava por isso, eu olhava, principalmente aqui em Camaçari todo mundo tem uma vida aparentemente perfeita, aí eu ficava imaginando como é que eu vou lá denunciar de novo e sendo que ninguém vai me apoiar, todo mundo vai achar que eu estou mentindo…, e era vergonhoso. Então, quando eu fiz isso, eu coloquei em público, as meninas começaram a mandar imediatamente, várias dizendo que passava por aquilo e até pior, por pai, pelos avós e também coisas de 2, 3 anos de idade. Aí eu percebi que não era só comigo, então eu me senti muito mais forte e essa força que eu fui sentindo com os comentários, eu fui conseguindo levar para as meninas. Eu não sei se vocês lembram que no começo eu só publiquei o texto e sumi, porque eu fiquei muito nervosa, eu queria apagar, eu comecei a ficar com vergonha. E depois que eu comecei a ler os relatos, eu me senti tão forte. Eu falei: “eu preciso ajudar mais gente para o Estado não falhar comigo de novo e não falhar com elas”. Porque, imagine, eu fui ajudada por um juiz, por advogados, eu sou estudante de direito, branca, de classe média alta, imagina as meninas da periferia que não têm ajuda de ninguém, que as mães são sustentadas pelos esposos, que na maioria das vezes os pais colocam elas próprias para irem trabalhar fora, a maioria na prostituição porque não a oportunidade em universidade, não tem oportunidade em escola, na maioria das vezes com traficante. Então, eu pensei em tudo isso. Depois que eu postei que eu comecei a ver os relatos, eu comecei a pensar fora da minha caixinha porque até então eu estava presa no meu mundo, mas eu ainda não estava vendo a situação das pessoas em si. Então, eu parei, é por isso que eu digo que não é ser sobre feminista, é sobre ser humanista porque eu comecei a pensar como ser humano e também que o meu caso não foi o primeiro, nem será o último. Então, eu fiquei muito encorajada e forte, e eu tenho certeza que a vida delas está mudando porque muitos relatos que você começa a procurar, as meninas estão até fazendo a mesma coisa: publicando as fotos e os textos embaixo, pedindo ajuda. Outras dizem: ‘a polícia veio buscar ele aqui hoje de manhã’; outras tiveram forças pra ir embora para outro país, pessoas com condições financeiras, mas que não conseguiam denunciar por medo. Então, eu estou muito feliz com isso tudo que está acontecendo e apesar das críticas, principalmente de homens, falando que eu estou me vitimizando, que eu estou querendo mídia, falou assim: “eu tô com nojo dessa mídia toda que você está fazendo, se vitimizando”. Aí eu falei: “você está com de uma luta por mulheres, você está com nojo de mulheres terem seu grito de liberdade, de poderem denunciar seus maus-tratos? Infelizmente, eu não posso te ajudar nisso, mas eu vou continuar lutando”. Aí eu coloquei lá embaixo: “P.S: se você não é uma garota lute por garotas, por favor, pelo Brasil”. E aí ele comentou um bonequinho chorando, pediu perdão e não falou mais nada. Porque ele estava visualizando a minha situação como se fosse mídia, mas sem parar para refletir o que a sociedade estava vivendo e o que é a nossa realidade. O meu Instagram é a maioria de mulheres, de 18 a 24 anos, mais da metade, e 97% de mulheres. Só mulheres. De 1 milhão, 97% de mulheres é muita coisa e são muitos comentários. Então, eu percebi que essa luta realmente é das garotas e por garotas, e que eu estou salvando vidas indiretamente, mas eu estou salvando e eu estou muito feliz.

D1 – E esse machismo impera, de achar que a culpa é sempre da vítima. É muito difícil quebrar isso.

EL – Sim, é muito complicado. Tem muitos questionamentos nas respostas lá, mas eu sempre comento e respondo com muito amor, e se for pra repetir eu repito ou então eu peço pra me chamar no privado. E quando eu falo as pessoas sempre me mandam áudio chorando. Não falo mal, eu falo normal igual eu estou falando com vocês, mas se você não acredita em mim você tem todo o direito e as pessoas “meu Deus, é verdade”, e acabam chorando. E antes, quem estava tomando conta do meu Instagram comigo era doutor Helder [Matos] e a esposa dele [Thami Ribeiro], porque eu estava psicologicamente muito abalada. Então, todas as críticas para mim eram: “meu Deus, eu tenho que desistir disso”. Mas agora, até que pararam mais as críticas, e eu também estou mais forte para ler e responder e mostrar para a pessoa que ela realmente está errada, tem que ver que tem um mundo além daquilo e que ele saiu de uma mulher. Se ele é vivo, ele saiu de uma mulher. Aí sim que a gente tem que fazer aquele trabalho delas se verem como mulheres e que somos fortes sim, e que ela tem que ver que ela precisa lutar por esse gênero, ela tem que lutar por ela mesma porque ela é mulher e ela pode ter uma filha um dia. Então, elas acabam conversando e aceitando no final.

D1 – Diante de tudo isso, da proporção que ganhou o caso, você tem se percebido enquanto liderança da causa?

EL – Sim, sim. Eu costumo dizer que até o momento não tinha caído a ficha. Para mim era só Eva contando a sua história e agora eu estou percebendo que são de crianças a idosos que me abraçam e começam a chorar, e dizendo “muito obrigada pelo que você está fazendo. Eu não passei por isso nem nada parecido, minha história foi muito boa graças a Deus”. E eu parei para refletir. Então, não são só as meninas que passaram, não são só as militantes feministas – que lutam por isso porque sabem a importância, porque sabem que a gente precisa, que estão envolvidas com a política – são também as pessoas mais leigas e até mesmo as crianças estão agradecendo por causa de um futuro lá na frente. E as senhoras estão falando: “era pra ter isso no meu tempo”. Eu fico até com um nó na garganta, porque é muito emocionante falar sobre isso. Eu nem imaginava, eu só falei lá no Instagram para chamar a atenção mesmo da mídia da Bahia e para o meu caso ser visto para não ser só mais um, até porque eu já tinha denunciado antes. Então, agora, você falou liderança dessa causa, que bom. Eu fico muito feliz de ser notada assim.

E o “Lute como uma garota” nem foi criado por mim. Algumas pessoas acham que foi por mim, foi pela Manuela D’Ávila [ex-deputada federal], inclusive ela entra em contato comigo direto e ela está muito feliz. Eu não usei a frase propositalmente. Foi uma frase que eu tinha ouvido e que eu gostava muito e que eu falava comigo mesma. Depois que acabava tudo eu me trancava no quarto e ficava: “lute, apenas lute”. Inclusive, isso ficava nas minhas orações: “você tem que lutar, você é uma garota”. Então, a primeira frase que eu pensei foi “Lute como uma garota” e eu vi o tamanho da proporção. E eu entro em contato com ela [Manuela] direto, ela tem o meu número pessoal e quando ela vem pra cá, ela faz questão de falar comigo. Ela vai vir agora de novo e eu vou encontrar com ela pessoalmente. Não é sobre religião, não é sobre partido, mas é sobre pessoas e causas, e nós vamos lutar juntas, independente de raça, cor, partido político, gênero. Nós vamos lutar juntas por um Brasil melhor e por mulheres livres. É o grito da liberdade totalmente.

D1 – É identificação de causa, né?

EL – Exatamente.

D1 – Você denunciou pela primeira vez quando tinha 13 anos e, no entanto, teve que retirar a denúncia, e não teve o caso investigado na época. Outras vítimas de violência também relatam a falta de acolhimento durante e após a denúncia, o que acha que falta para esse cenário ser diferente? E como acredita que essas mulheres podem ser melhor acolhidas?

 

D1 – Você conseguiu fazer a denúncia novamente depois de oito anos, com a ajuda de “anjos”, muitos deles atuam no judiciário. Se não fossem essas mãos te auxiliando acredita que teria forças para se desvencilhar desse sofrimento?

D1 – Sua mãe passou pela Casa Abrigo, agora está em outro local, como tem sido esse contato de vocês após o ocorrido? E sua irmã? Como vocês têm lidado com tudo isso?

 

D1 – Você é estudante de direito, como acredita que poderá ajudar outras mulheres com a sua futura profissão?

EL – Eu cheguei a desacreditar depois da minha denúncia, só que depois eu falei: “não, foi um caso específico e eu vou continuar com o meu sonho”, que sempre foi fazer Direito. Então, eu sei que agora eu vou militar nessa causa, não através do Direito apenas, mas já que eu estou terminando a minha faculdade [7º semestre] e eu pretendo fazer, então eu vou lutar em todas as áreas. Nem que tenha que advogar, nem que eu tenha que ir lá militar de frente e falar só porque eu tenho a carteira da OAB, mas assim o meu sonho mesmo é ser juíza, só que ser juíza você não escolhe a área que você vai atuar. Então, eu sempre estou dizendo que estou abrindo mão de um sonho por agora e vou lutar pelos sonhos de outras pessoas que são muito maiores do que o meu. Porque o sonho da liberdade é um sonho muito glorioso e é uma dádiva, liberdade é uma dádiva. Você não tem noção do que é você simplesmente querer sair na rua e não poder, você querer conversar com sua amiga sobre coisas pessoais e você não ter uma amiga para conversar porque você não pode, você não tem liberdade de falar no celular com alguém, se você se apaixonar por alguém e não poder ficar com essa pessoa, você ser sempre agredida, você ser perturbada de madrugada, de dia, você não ter nada que te faça feliz em nenhum momento, perseguição psicológica é horrível. Então, essa é a minha luta e eu vou lutar em todas as esferas seja ela política, seja ela na área jurídica, eu vou lutar da melhor forma possível. Mas eu só vou dizer que eu vou continuar lutando como garota ainda quando eu for uma senhora, eu vou lutar como uma garota porque eu estou vendo que isso está causando uma grande comoção e libertação para as meninas. E essa é a minha meta, eu vou lutar por elas seja em qualquer esfera que for.

D1 – O que mudou para você desde o dia 31 de janeiro até hoje? Quem é esta nova Eva que está se reconstruindo?

EL – Eu digo que mudou tudo. Mudou tudo, eu nem sei explicar quem sou eu agora porque eu estou em metamorfose. Eu conversei com Helder hoje e ele falou “você está em metamorfose, você está em transformação”. Tem dia que eu gosto de uma coisa, tem dia que eu descubro que eu gosto de outra coisa, eu estou descobrindo como é que eu vou me vestir, eu estou descobrindo que eu gosto mesmo é de cabelo curto e estou mudando, cada dia eu estou mudando. Eu não sei explicar quem é a nova Eva, mas eu digo que é lutadora, guerreira e que está apta a ouvir pessoas, amar pessoas e cuidar de pessoas como eu nunca tive. Cuidar como eu nunca fui cuidada, amar como eu nunca fui amada e eu quero levar a lei e a justiça e falar que ainda é possível ser livre e que estamos todas juntas e somos todas Eva.

Eva afirma que o desejo é continuar na luta do combate da violência contra a mulher. Foto: Hyago Cerqueira

D1 – Quem são suas inspirações para você continuar seguindo como uma ativista?

EL – Frida [Kahlo], apesar de ela ter uma história bem diferente da minha, ela foi uma mulher de muitas dores e de muito sofrimento. Só que os sofrimentos dela foram coisas absurdas assim, impressionantes para o nosso dia a dia; cada hora que ela ia se reerguendo ia acontecia alguma coisa diferente, mas a força e a arte dela e a maneira dela de ser da época, que causou choque em todo mundo. Então, eu acho que ainda assim hoje, apesar das pessoas falarem que estamos numa sociedade totalmente mudada, de feminismo, não é verdade. Como uma situação dessa que eu fiz causou uma grande repercussão até negativamente para os homens e para a sociedade machista, eu acho que a Frida em tudo ela fala, as frases dela me identificavam demais quando eu estava lá sozinha chorando em casa, eu lia aquelas frases e falava “meu Deus, parece que ela sente o que eu sinto”. A Frida pra mim é um ícone e eu falando dela acho que não preciso falar de mais ninguém, de verdade. Frida pra mim, como ativista agora, ela é ícone. E Malala [Yousafzai, ativista paquistanesa] também por tudo o que ela sofreu e gente, aquela menina brilha. Ela consegue falar, ela não teve medo e a situação dela não foi como a minha que tinha um perseguidor, ela tinha muitos, ela poderia ser perseguida e atacada em qualquer lugar e ela continuou lutando. Então, pra mim elas duas são sem dúvida os maiores ícones do feminismo verdadeiro e de luta, de batalha.

D1 – Quais são seus planos, tem projetos daqui para frente?

EL – É complicado porque por enquanto a gente está, eu estou aceitando tudo o que for em relação a palestra, a mulheres, a ajudar em fundos, em políticas públicas para as mulheres e eu acho que eu quero permanecer desse jeito. Eu quero permanecer seguindo esse ritmo, eu preciso terminar a minha faculdade e depois eu vou decidir se eu vou seguir um cunho jurídico ou não, mas o meu foco agora é conseguir conciliar essas palestras e palestrar o quanto antes e tudo o que eu precisar, fazer alguns cursos também porque eu me embolo quando eu vou falar as coisas, eu perco a atenção muito fácil com as câmeras e eu quero ajudar meninas. Então, eu vou lutar por essas políticas, eu vou lutar para estar ingressada nesses lugares e fazer com que DEAMs, Casa Abrigo, essas coisas cheguem a esses lugares, independente de política, independente de prefeitura. Eu vou lutar nem que seja nacionalmente, nem que a gente tenha que chegar lá no Congresso, a gente vai lutar por isso. Então, como eu falei, eu vou dar uma pausa nos meus sonhos para sonhar o sonho de outras meninas.

D1 – Qual mensagem deixa para garotas e mulheres que passaram ou estão passando por algum tipo de violência e também para aquelas que de alguma forma podem contribuir mais com a causa?

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